Juliet Starling, líder de torcida que decapita zumbis ao som de pop chiclete, foi convocada de volta ao palco — e, desta vez, em carne, osso e classificação +18. A Dragami Films anunciou no Tokyo Game Show que “Lollipop Chainsaw: First Slash” será um longa live-action situado antes do game de 2012, em plena maré de adaptações de jogos que tentam caber no PG-13.
Na mesma tacada, a SEGA cravou “Lollipop Chainsaw 2 Back2Back” exclusivamente no PlayStation 5 para 2027. O pacote deflagra um movimento mais agressivo: resgatar franquias irreverentes dos anos 2010 e dobrar a aposta na identidade adulta como antídoto ao excesso de blockbusters pasteurizados.
Filme mira espaço que Marvel e Netflix deixaram vago
A produção live-action foi vendida como comédia de ação para maiores, com orçamento médio e estreias simultâneas em salas IMAX e plataformas de aluguel premium. É a mesma rota que a Paramount ensaia em “World War Z 2”, matéria que detalhamos no portal. A lógica: enquanto Disney, Warner e Netflix enfraquecem investimentos em títulos de nicho, há brecha para obras de apelo cult e potencial viral.
A Dragami aposta no humor ácido e na violência cartunesca para atravessar a censura sem mutilar a marca. O roteiro se passa dois anos antes do game original, revelando a primeira caçada de Juliet ao lado da irmã Cordelia. A montagem deve manter os números musicais — motivo pelo qual a trilha sonora, hoje travada por licenças, foi renegociada faixa a faixa para cinemas e streaming.
Nenhum sinal de James Gunn, coautor do jogo de 2012 e hoje diretor intocável da DC Studios. Segundo apuramos, o estúdio japonês consultou a agenda de Gunn, mas o cachê pedido superava o teto de produção. A ausência reforça o interesse em posicionar a nova fase como propriedade própria, livre de comparações diretas com o autor que virou popstar em Hollywood.
Sequência no PS5 quer atualizar fetiche visual sem frear gameplay
Se o filme serve de porta de entrada, o jogo “Back2Back” precisa provar que Lollipop Chainsaw evoluiu além da piada de minissaia. Fontes internas relatam um combate menos “button mashing”, com sistema de ripostes inspirado em “Bayonetta 3” e uso ampliado de partículas para bonificar decapitações em combos aéreos.
O desafio é duplo: manter o charme adolescente que fez o original vender 1,5 milhão de cópias e, ao mesmo tempo, driblar o termômetro de redes sociais que hoje crucifica hipersexualização gratuita. Para isso, a Dragami montou um conselho de consultoria cultural composto por roteiristas do Cartoon Network Adult Swim e designers de moda street japonesa. A diretriz interna é clara: “Juliet continua sexy, mas a piada não é mais o shortinho, e sim o timing da serra elétrica”.
A escolha de exclusivo para PS5 também carrega mensagem. O console vive hiato de grandes hacks-and-slash desde “Devil May Cry 5”. Ao cercar esse vácuo, a SEGA tenta evitar o efeito inflacionário visto em hits de acesso fácil no universo Roblox: muita oferta de skins baratas reduz o senso de exclusividade. Aqui, o caminho é o oposto — conteúdo premium, limitado e espremido em hardware único.
Aposta adulta pode redefinir a rota de remakes nostálgicos
Desde “The Last of Us” na HBO, Hollywood percebeu que o público gamer aceita adaptações literalmente sérias, mas ainda faltam produtos que abracem o exagero cartunesco de franquias como “No More Heroes” ou “Dead Rising”. Lollipop Chainsaw se coloca como case-teste: se o público responder ao combo filme + jogo sem filtros, outros estúdios deverão ressuscitar IPs abandonadas sem diluir seu DNA original.
Para além da nostalgia, o timing também é econômico. Com a alta de custos de marketing, propriedades de culto oferecem base instalada de fãs, mas exigem menos verba de conscientização. Se funcionar, a Dragami terá criado um manual sobre como reviver IP de nicho em 2024: abra com longa adulto, calibre hype na janela de três anos e entregue sequência de console com tempero contemporâneo, mas sem asterisco de politicamente correto. A serra elétrica de Juliet, enfim, voltou a girar — e ela não pretende pedir licença.

