Sem alarde, os testes de figurino de “Superman 2: Man of Tomorrow” vazaram para executivos da Warner na última semana e revelaram um Guy Gardner quase irreconhecível. O Lanterna Verde mais truculento dos quadrinhos trocou o corte de “cuia” por um undercut militar e, principalmente, perdeu a aura de macho alfa tóxico que o colocou na geladeira de Hollywood por trinta anos.
A mudança não é mero capricho estético: ela sinaliza o ponto de virada da chamada “segunda camada” do DCU de James Gunn, na qual personagens marcados por polêmicas precisam caber em um universo que vende pluralidade. Se der certo, Gardner vira a peça que faltava para que a série “Lanterns” — já em filmagem sigilosa — chegue sem o rótulo de clube do bolinha que afastou parte do público da fase Snyder.
Nova personalidade corta o problema pela raiz
Nos anos 80, Guy Gardner foi concebido como paródia viva do herói conservador: ameaçava colegas, assediava coadjuvantes e resolvia tudo no soco. Esse “charme” agressivo funcionava em gibis de banca, mas viraria munição fácil nas redes sociais de 2025. A saída do roteirista Jeremy Slater foi remover o traço mais controverso — a misoginia — sem descaracterizar o temperamento explosivo que diferencia Gardner de Hal Jordan.
Segundo interlocutores que leram o novo tratamento de roteiro, o personagem agora assume o papel de “agitador ético”: ele continua falando o que lhe vem à cabeça, mas sua mira se volta para instituições autoritárias, não para companheiras de equipe. Em vez de piadas de cunho sexual, o texto injeta sarcasmo político — movimento parecido ao que a Marvel acaba de testar ao introduzir Sadie Sink como a nova Jean Grey.
Impacto direto em “Lanterns” e na dinâmica Hal versus Guy
A reformulação vem em boa hora. No piloto de “Lanterns”, Hal Jordan fecha o episódio com um ato que fãs classificaram como “spoiler de redenção rápida”. O ruído foi tão forte que um ator do elenco de “Superman (2025)” reclamou nos bastidores da decisão de humanizar Hal cedo demais. Com Guy agora posicionado como voz crítica, a balança dramática entre os dois Lanternas ganha frescor e evita o velho duelo de egos sem contraponto moral.
Não por acaso, a Warner começou a testar materiais promocionais que ecoam a virada sombria vista no pôster de Sinestro à la Hannibal. A ideia é mostrar que a Tropa vive um momento de autocrítica: se Sinestro expõe o autoritarismo, Guy escancara o machismo estrutural. A matemática de Gunn é simples — cada Lanterna carrega um defeito que o público reconhece e espera ver confrontado em tela.
Gunn aposta alto ao mexer no ícone mais divisivo da Tropa
Reescrever Gardner envolve risco calculado. Fãs raiz temem que o personagem perca a “essência badass”; já o público novo vai julgá-lo sob a lupa da coerência contemporânea. Para equilibrar, Gunn mantém dois símbolos clássicos: o anel como extensão emocional (o mais volátil entre todos os Lanternas) e a rivalidade com Batman, que deve ganhar cameo silencioso — eco do primeiro Batman do DCU que desponta esta semana.
Se a aposta vingar, “Man of Tomorrow” corrige a mancha histórica de Guy Gardner e entrega à série “Lanterns” um trio capaz de dialogar com questões de autoridade, masculinidade e redenção sem tropeçar no cancelamento fácil. Caso contrário, o DCU pode ver repetir-se o fiasco de “Supergirl” que obrigou o estúdio a mudar de rota às pressas. Entre ousadia e prudência, Gunn escolheu reescrever — e a audiência dirá se o novo Lanterna brilha ou apaga de vez.

