Yahya Abdul-Mateen II quebrou o silêncio e disse, sem rodeios, que o cancelamento de Wonder Man não teve nada a ver com as greves de Hollywood, mas com uma ordem direta de conter custos e afunilar histórias rumo a Avengers: Doomsday. A confissão enterra a versão oficial, segundo a qual a produção apenas “esperava momento oportuno” para retomar as gravações.
O relato do ator, obtido em um painel fechado em Austin, vai além da economia: ele revela que o roteiro original foi considerado “autônomo demais” para a fase atual do estúdio, que passou a privilegiar tramas 100% conectadas ao crossover multiversal. O recuo ajuda a explicar por que só Loki aparece na lista obrigatória divulgada esta semana pela Marvel para quem quer entender o próximo filme-evento.
Yahya desmonta a versão das greves e põe a conta na mesa de Feige
Segundo Abdul-Mateen, a equipe recebeu sinal verde em 2022 com orçamento comparável ao de Cavaleiro da Lua. Meses depois, a diretoria revisou todas as séries em desenvolvimento: quem não entregasse impacto direto no arco de Kang ou no cenário pós-Endgame seria limado. Foi ali que Wonder Man entrou no eixo de corte, muito antes dos piquetes.
O ator contou ainda que a Marvel pediu uma reformulação total do protagonista, transformando o herói em mentor que “prepararia terreno para outro personagem”. A equipe criativa recusou — o conceito desconstruía Simon Williams como astro egocêntrico tentando fazer carreira em Hollywood. Sem acordo, o estúdio concluiu que sairia mais barato cancelar do que remontar cenários e chamar roteiristas de volta.
A cúpula teme repetir o desgaste de Invasão Secreta, produção cara, bem recebida no pitching inicial, mas criticada por pouca relevância para o futuro do MCU. Esse fantasma pesa tanto que até franquias tradicionais estão sendo recalibradas, como mostra a recente decisão de dar upgrade no Professor X para alçar os mutantes ao núcleo principal.
Corte expõe nova filtragem de histórias pré-Doomsday
O cancelamento de Wonder Man encaixa-se numa estratégia que vem se repetir: eliminar ou adiar projetos que não possam ser resumidos em um parágrafo no prólogo de Doomsday. Foi esse mesmo pente-fino que empurrou para frente a série dos Thunderbolts e que ameaça adaptações menores dos X-Men anunciadas no ano passado.
A própria Marvel sinalizou a mudança ao divulgar, na última quarta-feira, uma watchlist “essencial” para o público. A lista inclui apenas um título do Disney+: Loki. O recado implícito: qualquer história periférica que complique o entendimento do grande público está fora do cardápio. Não por acaso, fontes internas relatam que roteiristas estão sendo orientados a trabalhar com núcleos menores e a evitar personagens cujo arco exija mais de uma temporada para maturar.
Para Abdul-Mateen, a frustração vem acompanhada de alívio: “Melhor parar agora do que lançar algo que já nasça descartável”. A fala resume a nova realidade do estúdio: séries precisam justificar cada dólar em cena ou serão arquivadas — ainda que com protagonista, figurinos e cenários prontos. Uma guinada radical que, se permanecer, pode deixar mais heróis na gaveta antes mesmo do próximo estalo universal.

