A Marvel acaba de fazer algo que dificilmente admite em público: chamou um dos autores de seu maior tropeço pré-MCU, Ghost Rider: Spirit of Vengeance, para dar um “puxão de orelha” criativo no reboot que terá Ryan Gosling no lugar de Nicolas Cage. Foi numa videoconferência sigilosa, confirmada à reportagem por três envolvidos, que David S. Goyer despejou uma lista de erros cometidos em 2011 e entregou o caminho que, segundo ele, transformaria o motoqueiro em peça de prestígio — a começar por não ter medo de um selo para maiores de 18.
O gesto revela pressa: o estúdio precisa pôr um anti-herói de peso em cena logo depois de Secret Wars para sustentar a chamada “era dos eventos”. Se falhar de novo, coloca em risco o calendário que já embola Blade, Daredevil e o aguardado retorno de Cavaleiro da Lua.
Goyer assume os próprios tropeços e exige terror visceral no novo roteiro
A primeira recomendação foi cirúrgica: “parem de polir o inferno”. Nas palavras de um produtor que esteve na sala virtual, Goyer apontou que o filme de Cage “tentou ser épico com orçamento limitado” e acabou refém de CGI datado. Para não repetir a imagem de uma caveira digital “com cara de videogame de Play 2”, o roteirista sugeriu priorizar efeitos práticos, combustão real e fotografia noturna que reverbere o piche das ruas — inspiração assumida em Mad Max: Estrada da Fúria, também estrelado por Gosling no comercial que nunca existiu, mas viralizou.
Outra autocrítica transformada em conselho foi o PG-13. Segundo Goyer, o limite etário “amansou” o motoqueiro num momento em que Deadpool nem sequer era cogitado pela Disney. Agora, com Blade em desenvolvimento e Endgame Encore reacendendo o apelo nostálgico entre adultos, a Marvel estuda lançar Ghost Rider como seu primeiro terror oficialmente R-rated dentro do MCU — algo que agradou Gosling, fã confesso de O Exorcista.
Anti-herói de Gosling articula o tabuleiro pós-Secret Wars
Nos bastidores, a aposta vai além do acerto de contas com o passado. Executivos veem Johnny Blaze como elo entre o núcleo místico (Doutor Estranho), o “street-verse” que a terceira temporada de Daredevil: Born Again quer consolidar e o terror cósmico de futuras aparições do Motoqueiro em Avengers: Doomsday, já teasers em foto vazada indicam a presença da TVA e de Doctor Doom. O personagem serviria de trunfo para reaquecer parte do público que se distanciou na Multiverse Saga.
A pressa também encontra ecos na tesoura da Disney: com um quinto projeto do MCU cancelado nos cortes de custo mais recentes, a permanência de Ghost Rider na fila de produção ocorreu porque o estúdio enxergou nele “sinergia pronta” — isto é, merchandising que conversa tanto com o fã colecionador de motos quanto com o mercado de parques temáticos, onde uma montanha-russa temática já está na prancheta.
O detalhe que quase ninguém percebe: o contrato de Cage ainda assombra
Embora pouco comentado, Nicolas Cage mantém uma cláusula de first refusal para participações futuras do personagem até 2030, herança de um acordo assinado antes da venda dos direitos para a Disney. Advogados tiveram de negociar um cameo simbólico — provavelmente como outro hospedeiro do demônio Zarathos — para liberar a escalação de Gosling sem processo. Se o aceno sair do papel, será a primeira vez que um ex-adaptação “fora do cânone” aparece oficialmente dentro do MCU.
Com roteiro reescrito às pressas, aval de Goyer e relógio de Kevin Feige marcando menos de dois anos para as câmeras rodarem, o novo Ghost Rider corre para provar que aprender com o fracasso é tão superheroico quanto salvar o mundo em CGI flamejante.

