Uma maquete de 2.600 peças do Ichiraku Ramen, criada por um fã no programa LEGO Ideas, atingiu 10 mil apoios formais nesta semana — a senha mínima para que o projeto de Naruto seja avaliado pela cúpula dinamarquesa. É a primeira vez que um cenário do anime supera essa barreira e chega com força para disputar vaga no portfólio oficial da marca, hoje dominado por Star Wars, Marvel e Harry Potter.
O cronômetro agora está nas mãos do comitê interno, que tem até janeiro para dizer se o restaurante mais famoso de Konoha vira caixa nas prateleiras. Enquanto isso, o número reabre a conversa sobre por que — e por quem — a LEGO decide enfim encarar o público otaku, setor onde Funko, Bandai e até a Netflix já testam as águas.
10 mil cliques que valem contrato multimilionário
No LEGO Ideas, a marca terceiriza a pesquisa de mercado: qualquer pessoa propõe um set digital, tenta driblar o algoritmo e, se alcançar 10 mil apoios, ganha o direito de ser julgada pelo board. Só 3% dessas ideias viram produto; quem assina o design recebe 1% do faturamento líquido. Foi assim que uma pequena casa vitoriana inspirou o sucesso global da linha “Modular Buildings”.
No caso do Ichiraku, o timing joga a favor. 2024 marca os 25 anos de Naruto, e a Shueisha já prepara eventos de aniversário. Além disso, colecionadores internacionais especulam que a LEGO negocia um pacote maior de licenças shonen, que incluiria Demon Slayer e One Piece. A pista veio de registros de patentes europeias e de uma leva de pesquisas de mercado internas vazadas em fóruns — nenhuma confirmada publicamente, mas todas apontando a mesma direção: diversificar além da cultura pop ocidental.
Por que a cozinha de Konoha mexe no tabuleiro global
A LEGO ainda vende mais blocos que qualquer rival, mas o ritmo de expansão caiu de 17% para 2% em dois anos, segundo relatórios da própria companhia. O segmento “adultos nostálgicos” segurou o faturamento com sets de Seinfeld e Atari, porém enfrenta saturação. Trazer Naruto — um IP com 250 milhões de mangás vendidos — é a brecha para conversar com a Geração Z asiática sem depender apenas de pequenos spinners ou réplicas de mecha.
O avanço também pressiona concorrentes. A Bandai domina kits de montagem de Gundam, mas nunca emplacou grandes construções de cenários. Já a Mega, marca da Mattel, trabalha com Pokémon e precisa renovar contratos anuais. Um eventual aceno da LEGO a Naruto forçaria rivais a subir o lance por licenças de Jujutsu Kaisen, Chainsaw Man ou Solo Leveling — este último já virou alvo da estratégia de hype cross-mídia da Netflix.
O detalhe que quase ninguém vê: a fila cheia pode adiar Konoha
Embora o entusiasmo seja legítimo, o set do Ichiraku não está nem perto de garantia. Existem hoje 51 projetos na mesma fase de revisão, incluindo máquinas de fliperama clássicas e um diorama do Egito Antigo, temas de apelo universal e menores custos de licença. Dentro da LEGO, cada nova IP passa por um ciclo de auditoria que avalia não só royalties, mas também “afinidade de bloco” — a capacidade de reproduzir o design sem peças inéditas demais, algo que encarece moldes e atrasa cronogramas.
A cozinha de Konoha exige tijolos serigrafados exclusivos para letreiros em japonês e peças curvas raras para as tigelas de ramen. Isso gera um ponto extra de negociação: a Shueisha precisaria ceder grafismos originais, e o braço americano da LEGO teria de aprovar uma produção com baixo reaproveitamento para temas futuros. Se o board julgar o risco alto, o projeto pode ser empurrado para outra rodada, mesmo com todo o clamor popular.
A resposta oficial sai até o fim de janeiro. Caso o Ichiraku cruze a linha final, chegará às lojas em 2026, coincidindo com a onda de aniversários de animes dos anos 2000 — e reforçando a tese de que, depois de patinar no retro gaming, a LEGO entendeu que a verdadeira mina de ouro da nostalgia mora nos shonen que cresceram junto com a Internet.
Acesse diariamente nossas dicas sobre animes e games para não perder nada. Siga também o RadioGeekBR no Facebook!

