“Eu não faço ideia do porquê.” A frase, dita por Shuhei Yoshida — ex-chefe dos estúdios da PlayStation e atual embaixador de indies na companhia — sobre a falta de uma versão de Bloodborne para PS5 ou PC, caiu como estilhaço entre fãs e investidores. Se até quem comandou a linha first-party não consegue explicar, o silêncio da Sony deixa de ser mero capricho e vira sinal de desajuste estratégico.
O espanto de Yoshida ecoa a pergunta que há nove anos circula em fóruns: por que o RPG gótico da FromSoftware segue trancado a 30 quadros por segundo no hardware de 2013 enquanto colegas de prateleira, como God of War e Horizon, já faturam em dólar no Steam? A dúvida respinga no timing da companhia, que aposta pesado na expansão para PC e em remasterizações premium, mas insiste em deixar um dos catálogos mais cultuados fora do novo palco.
Silêncio colide com a ofensiva da Sony no PC
Desde 2020 a PlayStation abriu as comportas: Horizon Zero Dawn, Days Gone, God of War, Spider-Man, The Last of Us Part I e até a coletânea Uncharted chegaram ao Steam. A própria Nixxes, comprada para essa missão, já mexe em porte de qua-tro projetos simultâneos, segundo relatos internos. Ao ignorar Bloodborne — jogo que vendeu 2 milhões na primeira window e permaneceu no topo de engajamento do PS4 por anos — a empresa deixa dinheiro na mesa e enfraquece o discurso de “catálogo vivo”.
O timing só piora quando se olha para fora: Elden Ring, sucessor espiritual do título, bateu 20 milhões de cópias em um ano, e Lies of P mostrou o apetite por souls-likes no Game Pass. É como se a Sony entregasse o território à concorrência. A ironia é ampliada pelo investimento de 14% que a casa do PlayStation fez na FromSoftware em 2022. A dona da marca injeta capital no estúdio, mas não capitaliza o game que já controla.
Obstáculos técnicos existem, mas política pesa mais
Engenharia não falta: Bluepoint, estúdio que refez Demon’s Souls e Shadow of the Colossus, teria prototipado um upgrade de Bloodborne ainda em 2019, segundo funcionários que pediram anonimato. O port comunitário de 60 fps feito pelo hacker Lance McDonald, rodando em consoles destravados, mostrou que o motor original aguenta voar; falta selo oficial. O problema, apontam fontes ligadas à PlayStation Studios, é de governança: quem lidera o projeto? A Japan Studio, co-desenvolvedora original, foi dissolvida em 2021; a agenda da FromSoftware está lotada; e a hierarquia interna da Sony acabou fragmentada entre equipes de PC, retrocompatibilidade e remakes.
Enquanto isso, rivais transformam a retrocompatibilidade em vantagem competitiva: a Microsoft, por exemplo, usa inteligência artificial para turbinar clássicos no PC e fazer do desktop o “terceiro Xbox”, como já analisamos em reportagem anterior. O contraste pressiona a Sony a resolver quem segura a chave de Yharnam antes que o hype se converta em frustração definitiva.
Com Yoshida declarando ignorância pública, a bola está no colo de Jim Ryan — ou de seu sucessor, já que o executivo se despede da presidência da SIE em março de 2024. Qualquer que seja a decisão, ela dirá mais sobre o futuro da estratégia multiplataforma da PlayStation do que sobre um único jogo. Afinal, se até Bloodborne pode ficar esquecido, nenhum exclusivo está realmente a salvo das zonas mortas do catálogo.
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