Hayao Miyazaki apareceu de surpresa na sede do Studio Ghibli, em Tóquio, para anunciar “Hoshi wo Koete” (Além das Estrelas), obra que chega em outubro e mistura curta-metragem inédito, trilha ao vivo e uma instalação itinerante que atravessa cenários de seus filmes mais amados. É a primeira vez que o diretor cria um projeto pensado para ser visto fora do cinema — e o estúdio já negocia temporadas em Paris, Los Angeles e São Paulo.
O anúncio virou trending topic porque coloca Miyazaki, 83 anos, na contramão da aposentadoria prometida depois de “O Menino e a Garça”. Mais que nostalgia, “Hoshi wo Koete” quer testar se o público topará pagar por uma jornada sensorial premium, algo que o Ghibli tem provocado desde que a lâmpada retrô de Kiki esgotou no Japão. A iniciativa ajuda a responder quem herdará o volante criativo do estúdio — e quanto vale esse passe na próxima década.
Miyazaki recicla e expande seu próprio universo em “Hoshi wo Koete”
Na prática, o novo trabalho é um curta de 28 minutos projetado em tela de 360 graus dentro de um vagão cenográfico — referência ao trem de “A Viagem de Chihiro”. Entre cada sequência, portas se abrem para cômodos temáticos: a floresta de Totoro exala cheiro de cedro; o ferro-velho de “O Castelo no Céu” ganha engrenagens reais movidas a energia solar. O visitante decide quanto tempo passa em cada cenário, fazendo o filme avançar ou desacelerar.
Segundo membros da equipe de produção, Miyazaki tratou o roteiro como um mosaico: nenhum quadro é totalmente novo, mas todos foram redesenhados à mão para conversar entre si. O resultado provoca o fã veterano a notar conexões invisíveis — por exemplo, a infância livre de Totoro contrasta com um final inédito no qual Chihiro, já adulta, retoma o trem para revisitar o espírito do sem-rosto. O diretor vem trabalhando nesse entrelaçamento desde o “filme-surpresa de 2026” que, como revelamos, ensaia lições sobre tempo e cuidado.
Há também um componente de despedida: personagens secundários ganham últimas falas gravadas por dubladores históricos que já se afastaram dos estúdios. A equipe garante que nada será lançado em streaming antes de 2027, salvo um teaser de 90 segundos que estreia em Cannes para atrair programadores de museus.
Instalação vira laboratório do Ghibli para o mercado “adulto premium”
O modelo escolhido — ingressos que variam de US$ 45 a US$ 120 com lotes VIP limitados — expõe a nova estratégia do estúdio: vender memória curada, não apenas licenciar filmes. Depois do boom turístico no Ghibli Park, a direção percebeu que a geração que cresceu nos anos 90 busca experiências imersivas e colecionáveis de alto tíquete, tendência que rendeu 1,8 bilhão de ienes em produtos exclusivos só em 2023.
Internamente, a aposta serve como teste-drive para Gorō Miyazaki e Hiromasa Yonebayashi, vistos por executivos como dupla capaz de manter a essência artesanal do selo sem repetir fórmulas. Eles assinam parte da direção de arte da instalação, enquanto Hayao supervisiona storyboard e ritmo. Caso o projeto bata a meta de 600 mil visitantes até março, o estúdio já tem sinal verde bancário para abrir um segundo espaço fixo fora do Japão em 2028.
A expectativa financeira também respinga na indústria de licenças, que viu concorrentes como Toei animar se mexer depois que Dragon Ball voltou a ficar atrás de One Piece. Ao levar o cinema para um formato expositivo, Miyazaki coloca pressão sobre franquias rivais que dependem de bilheteria tradicional ou streaming.
Para o público, “Hoshi wo Koete” promete ser a chance mais completa de atravessar, fisicamente, o universo Ghibli antes que o próprio criador desligue o lápis de vez. Se der certo, não será apenas um tributo: será o primeiro grande desenho do que significa assistir — e pagar por — animação autoral na década em que as telas já não bastam.

