Os fãs de Dragon Ball amanheceram nesta segunda (29) com um golpe que não veio de nenhum vilão: Mike McFarland, voz inglesa do irreverente Mestre Kame e diretor de dublagem da série desde a era Z, morreu aos 56 anos. A confirmação partiu de colegas de estúdio na Funimation/Crunchyroll na noite de domingo, apenas três meses antes de a franquia revelar novas animações para 2025.
Além de dar vida ao ancião tarado mais famoso dos animes, McFarland era o responsável por coordenar elencos inteiros em títulos como One Piece e My Hero Academia. Sua ausência num momento em que a Toei negocia reedições 4K e spin-offs — como a volta do Broly maligno já antecipada pela Bandai — expõe uma engrenagem pouco visível: a escassez de diretores de ADR que entendam tanto de atuação quanto de cultura pop japonesa.
Diretor, ator e guardião de continuidade
Em estúdios de dublagem para anime, o diretor de ADR decide cortes de roteiro, ritmo das falas e, sobretudo, coerência da tradução com a mitologia original. McFarland dominava essas três frentes. Foi ele quem, em 2003, convenceu a Funimation a manter o nome “Kamehameha” em vez de abrasileirar para “Tartaruga Ondo”, preservando a piada interna que remete ao Mestre Kame.
A liderança ganhou peso quando a Toei passou a lançar versões remasterizadas em Blu-ray. Segundo engenheiros de som da própria Funimation, McFarland testava cada efeito em cinco sistemas diferentes para garantir que o grito de Goku não estourasse caixas de som domésticas. Esse zelo transformou o estúdio texano no polo de referência para dublagens de shonen nos Estados Unidos.
Vácuo estratégico justo quando o jogo muda
O cronograma de Dragon Ball entra agora em zona de turbulência. A Toei negocia a dublagem simultânea de novos episódios, mas a Funimation perdeu quem comandava o “simuldub” — prática que grava vozes em inglês a menos de 24 horas da exibição no Japão. Substituir McFarland exige combinar domínio técnico e memória afetiva do público, uma soma rara num mercado que já sofre com a concorrência de games e audiobooks.
A lacuna se estende a produtos licenciados, como o relançamento do Broly maligno. Bonecos, trilhas e campanhas de marketing dependem da aprovação do diretor de voz para usar trechos de diálogos clássicos. Sem ele, contratos precisam ser renegociados ou engavetados, atrasando a máquina de nostalgia que alimenta as vendas.
Sinal amarelo para a indústria de dublagem
McFarland não era exceção: outros diretores veteranos, como Christopher Sabat, já reduziram a carga de trabalho citando fadiga e agendas tomadas por convenções. Com o enfraquecimento dos sindicatos especializados em voz no Texas — epicentro da dublagem de anime nos EUA —, a saída natural tem sido importar talentos de Los Angeles, onde SAG-AFTRA assume o comando. Mas isso aumenta custos e distancia o processo de legacy performers que construíram a sonoridade de Dragon Ball nas últimas três décadas.
Para os fãs, a voz de Mestre Kame ecoará eternamente nos gritos de “Kamehameha”. Para a Funimation, o eco é também um alerta: sem herdeiros treinados, cada nova superforma de Goku corre o risco de chegar ao Ocidente sem o polimento que tornou a dublagem inglesa de Dragon Ball um fenômeno à parte da série original.

