Dois anos depois de perder para a concorrência parte de suas marcas mais vistas, a Netflix voltou a bater na mesa: garantiu a volta de One-Punch Man em um acordo que prevê três lançamentos sucessivos — as duas primeiras temporadas remasterizadas e a estreia exclusiva do aguardado terceiro arco. A jogada pega de surpresa Disney+ e Crunchyroll, que negociavam em paralelo a franquia de Saitama.
Por trás do anúncio enxuto, a plataforma tenta tampar o buraco deixado pela saída de pesos-pesados como a saga Pokémon, hoje na Disney+. Recuperar o herói que derrota qualquer vilão com um soco é também piscar para o público que migrou para animes de ação na concorrência e reafirmar que, se não pode mais contar com Marvel e DC, vai fabricar o próprio universo de capas e superpoderes.
Pacote de três atos coloca a Netflix de volta no ringue dos animes-herói
O contrato, confirmado por executivos do Japão e de Los Gatos, libera de uma vez:
- as versões em 4K de toda a primeira temporada, há meses fora do streaming no Brasil;
- um relançamento “director’s cut” do segundo ano, com trilha recombinada que custou caro à J.C.Staff;
- a temporada 3, ainda em produção, com janela de exclusividade global de 18 meses.
Mais que volume, o pacote entrega continuidade — algo que faltava à Netflix desde a dispersão de títulos de super-herói animado em 2022. Internamente, a métrica que convenceu os investidores foi o tempo de engajamento: a companhia projeta 280 milhões de horas vistas nas oito semanas iniciais, números equiparados ao fenômeno “One Piece” live-action. Se a previsão se cumprir, a plataforma ganha argumento para bancar novas coproduções no mesmo molde.
Bastidores revelam pressa e custo alto: US$ 38 milhões só na temporada 3
Fontes ligadas ao comitê de produção relatam que a Netflix aceitou bancar sozinha cerca de US$ 38 milhões para acelerar a terceira temporada, quase o triplo do que a animação havia custado ao estúdio anteriormente. O dinheiro extra garante equipes paralelas de storyboard e CGI para cumprir a meta de estreia mundial em outubro, antes da janela de outono que costuma favorecer a Crunchyroll.
O adiantamento, porém, não compra apenas velocidade. Ele inclui cláusula de prioridade sobre qualquer filme live-action ocidental de One-Punch Man, projeto que vinha sendo cortejado pela Sony Pictures. Se o longa sair do papel, ele terá de chegar primeiro (ou simultaneamente) à Netflix, o que turbina o efeito de rede que a plataforma perdeu quando “Daredevil” e afins migraram para a Disney.
Detalhe oculto: blindagem contratual segura Saitama até 2028
Passou quase despercebido no comunicado o item que pode balançar futuras curvas do mercado: a franquia não poderá ser licenciada para catálogo fixo de nenhum concorrente global até dezembro de 2028. Isso impede, por exemplo, que Hulu nos EUA ou Star+ na América Latina façam ofertas sozinho ou compartilhem janelas de exibição.
Na prática, a Netflix compra tempo para destravar um “universo Saitama” sem a ameaça de fuga repentina, algo que aconteceu com o portfólio infantil depois que Pokémon escolheu a Disney+. Para o assinante, o ganho imediato é óbvio: maratonar tudo em um só lugar. Para os rivais, é um alerta de que o velho modelo de licenças sazonais volta a ficar caro — e, no caso de heróis, talvez definitivo nesta década.
A ofensiva não elimina o risco de saturação, mas recoloca a empresa no centro da conversa cultural que andava dominada por animes como “Demon Slayer” e “Jujutsu Kaisen”. Se a trilogia funcionar, a mensagem é clara: o futuro da batalha dos super-heróis pode ser decidido muito longe de Hollywood — e a Netflix resolveu apostar todas as fichas nesse ringue.

