Em silêncio desde março, a Paramount Pictures puxou o gatilho que faltava para disparar mais uma corrida de adaptações de videogames: um longa-metragem live-action ambientado no universo de Cyberpunk 2077. O sinal verde veio junto com um nome que costuma transformar brinquedos e quadrinhos em bilheteria: Lorenzo di Bonaventura, produtor da franquia Transformers.
Para os fãs, a notícia soa como recompensa tardia após o conturbado lançamento do jogo em 2020; para Hollywood, é a tentativa de repetir a virada de EdgeRunners — o anime da Netflix que ressuscitou o interesse pelo título e vendeu 20 milhões de cópias extras, segundo a própria CD Projekt. O buraco, porém, é mais fundo: o projeto alinha dois movimentos estratégicos que vinham correndo em paralelo e agora se fundem num plano de longo prazo.
Paramount busca a próxima máquina de franquias — e aposta no futuro distópico
Di Bonaventura não esconde de ninguém que o objetivo é franquia, não filme único. Foi assim com Transformers, cuja bilheteria global supera US$ 5 bilhões, e é assim com qualquer propriedade intelectual que ele abrace. A diferença está no ponto de partida: Cyberpunk 2077 chega aos cinemas já com lore consolidado, fandom engajado e provas recentes de que rende histórias fora dos consoles.
Internamente, a Paramount vê no título polonês três vantagens estratégicas. Primeiro, o universo futurista não briga com nenhum ativo do estúdio hoje — ao contrário, complementa um catálogo carente de ficção científica adulta. Segundo, o arco de redenção pós-EdgeRunners mostrou que a marca aguenta tempestades de relações públicas sem perder tração. Terceiro, o timing coincide com a onda de nostalgia “tech noir” que alimenta séries como Blade Runner 2099, abrindo espaço para colaborações de merchandising que vão do streetwear aos colecionáveis premium.
Para a CD Projekt, abrir o set é pisar no acelerador transmidia
A criadora do jogo passou três anos bombeando atualizações, culminando na expansão Phantom Liberty, para virar a maré de críticas técnicas. Agora, a ordem em Varsóvia é converter reputação em receita recorrente — o que passa por licenciar a marca sem perder o volante criativo. Nos bastidores, a CD Projekt manteve poder de veto sobre roteiro, design de personagens e linha do tempo, algo raro em acordos Hollywoodianos. O contrato também inclui coparticipação nas bilheterias, um modelo que a empresa considera mais atraente que royalties fixos.
Fontes próximas às negociações revelam que o filme vai se situar entre a campanha original e os eventos de Phantom Liberty, decisão pensada para não queimar material de Cyberpunk 2, já em pré-produção. Ou seja, cinema e jogos caminharão lado a lado, estratégia semelhante à que a Microsoft aplicou ao anunciar Gears of War: E-Day para manter a franquia viva enquanto prepara a sequência principal.
O detalhe que escapa ao radar
Quem assina os direitos originais de Cyberpunk é Mike Pondsmith, criador do RPG de mesa de 1988. Nos documentos de cessão, Pondsmith manteve poder de consulta sobre qualquer projeto audiovisual — inclusive live-action. Traduzindo: a Paramount precisou de três assinaturas para avançar (CD Projekt, R. Talsorian Games e o próprio Pondsmith), algo que raramente acontece em Hollywood e pode explicar por que o anúncio chega só agora, quase quatro anos depois do jogo.
O cronograma ainda é mantido a portas fechadas, mas a pré-produção deve arrancar no primeiro semestre de 2025, quando di Bonaventura fecha compromissos com outras franquias. Até lá, a CD Projekt aposta que o buzz do filme segurará a comunidade engajada, enquanto avalia novas parcerias — inclusive com engines emergentes como a Saros, que já corteja o estúdio com a promessa de zerar royalties em projetos futuros.
Se o plano vingar, Cyberpunk 2077 pode ser a virada definitiva da indústria dos games no cinema: não mais coadjuvante de marcas clássicas, mas motor de franquias próprias — e, quem sabe, o primeiro passo para transformar Night City no novo território multimídia de US$ 1 bilhão.

