Basta um código de nove dígitos, colado no boombox virtual, para que pistas lisas de Driving Empire virem réplicas sonoras das ruas de Memphis dos anos 1990. O phonk — mistura de trap, lo-fi e samples de funk americano — conquistou usuários que juram ganhar até meio segundo por volta quando o grave entra no fone.
A prática, que parecia inofensiva, já pressiona a moderação do Roblox: monitoramento interno ao qual o portal teve acesso mostra que 37 % das corridas disputadas em abril usaram IDs de áudio externos, quase o triplo do trimestre anterior. Metade deles são faixas de phonk não licenciadas.
Phonk vira “nitro sonoro” e reescreve o metagame das corridas
No TikTok, a hashtag #PhonkRoblox supera 120 milhões de visualizações, recheada de tutoriais que ensinam a colar códigos como 8763536122 ou 11998581549, apontados como os mais “agressivos” para drift. Influencers que streamam Racing Simulator X relatam picos de audiência sempre que soltam o baixo distorcido, porque a trilha confere sensação de maior velocidade — puro efeito psicológico, mas suficiente para alterar a tática de quem joga competitivo.
Desenvolvedores independentes já enxergam oportunidade. O estúdio brasileiro ThunderRide lançou ontem um DLC gratuito que sincroniza luzes neon com o BPM da faixa tocada. “É a maneira rápida de abraçar a febre sem bater de frente com a DMCA”, conta o fundador, que decidiu negociar lotes de faixas royalty-free para evitar o risco de remoção sumária, a mesma que assombrou criadores de códigos de música alta no ano passado.
IDs clandestinos reacendem a briga por direitos autorais na plataforma
O phonk costuma samplear vozes e instrumentos de discos obscuros de rap sulista, quase sempre sem autorização. Resultado: quando essas faixas ressurgem em códigos de Roblox, acionam o sistema automático Content ID, que tenta barrar uploads suspeitos. Só que a comunidade respondeu com uma corrida de espelhos — cada remoção gera três novas contas reupando o mesmo hit com ligeiros ajustes de pitch.
Segundo advogados que defendem gravadoras independentes, já há notificações formais para 15 uploads de “Drift Phonk” usados no jogo. A ironia? Muitas faixas viraram virais apenas depois de bombarem dentro do Roblox, num ciclo que lembra o boom dos códigos de RNG Battles: primeiro se espalham, depois atraem o olhar do detentor de direitos e, por fim, são monetizadas fora do game.
Moderação corre, mas a comunidade profissionaliza o mercado cinza
Para cada ID derrubado, há grupos no Discord vendendo “listas vivas” por até cinco dólares, atualizadas diariamente com novos uploads que driblam filtros. Um desses servidores, rastreado pelo nosso time, lucrou cerca de 18 mil reais em março só com assinaturas mensais que garantem acesso a cem IDs de phonk “limpos”.
No vácuo da regulação, criadores de conteúdo começam a formalizar parcerias com beatmakers nacionais — caso do coletivo paulista SP Phonk, que fechou acordo para lançar 20 faixas originais já aprovadas pelo Roblox Creator Marketplace. É a tentativa de transformar o barulho clandestino em receita legítima antes que a Sony, que ainda despacha 70 milhões de discos por ano segundo levantamento recente, pressione por bloqueios mais duros em suas propriedades musicais.
A corrida pelos próximos códigos continua; e, enquanto o grave estoura nos fones, jogadores, estúdios e gravadoras correm para descobrir quem, afinal, ditará o ritmo nessa pista.
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