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Rascunho vetado há 30 anos revela bastidor tenso entre Bandai e diretor após Gundam Wing

O esboço esquecido ficou trancado num armário de Tóquio por quase três décadas, mas voltou à luz na última semana: a primeira versão do mobile suit principal de “After War Gundam X” — produção que sucedeu o fenômeno Gundam Wing em 1996 — foi oficialmente rejeitada pela Bandai antes mesmo da série estrear. Quem escancarou a história foi o diretor Shinji Takamatsu, num painel fechado a jornalistas, quebrando um silêncio que alimentava especulação de fãs desde o cancelamento precoce do anime.

A confissão vai além da curiosidade de colecionador. Ao detalhar como a linha de brinquedos da fabricante determinou mudanças “para não competir visualmente com o Wing Zero”, Takamatsu expôs uma engrenagem ainda dominante: a prioridade comercial sobre o risco criativo. A revelação chega em momento sensível, quando o estúdio Sunrise prepara a leva de lançamentos dos 45 anos da marca e tenta convencer o novo público de streaming de que Gundam não é refém de nostalgia engessada.

Bandai travou duelo de silhuetas e impôs regras de cores

No rascunho mostrado pelo diretor, o “Gundam X-0” ostentava asa dupla e feixes de luz roxos, combinação que lembrava a aura anjo-demoníaca de Wing Zero. Segundo Takamatsu, executivos temiam confusão nas prateleiras: a meta era vender kits diferenciados, não um “irmão gêmeo” do sucesso anterior. Resultado: o projeto foi devolvido com bilhete curto — “troque as asas, apague o roxo”.

A versão que chegou à TV trocou as penas metálicas por um canhão satelital nas costas e adotou branco predominante. Para o designer Kunio Okawara, que precisou redesenhar às pressas, a troca diluiu a personalidade do herói Garrod Ran, pensado como antítese poética de Heero Yuy. O público nunca soube; apenas estranhou a série ser cortada de 49 para 39 episódios após queda na audiência.

Revelação afeta nova safra de remakes e acordos com streamings

O timing do relato não é casual. A Bandai-Namco prepara anúncios para a Anime Expo em julho, incluindo um remake parcial de sagas dos anos 90. Ao lembrar que decisões de marketing podam direções artísticas, Takamatsu pressiona o comitê a dar mais autonomia aos diretores, que hoje precisam negociar simultaneamente com TV, plataformas digitais e linhas de hobby.

Na prática, a Crunchyroll — que veste uniformes de Solo Leveling e briga por revivals premium — já sinalizou interesse em distribuir qualquer corte do storyboard recuperado. É um movimento que ecoa a disputa pelos clássicos, como mostrou o retorno de Sailor Moon. Ter em catálogo a “versão proibida” de um Gundam pode virar arma de marketing poderosa na guerra de assinantes.

Detalhe que passou despercebido: o traço vetado reciclou ideia de Tomino dos anos 80

Um slide quase ignorado no painel incluía nota de punho do criador original, Yoshiyuki Tomino, chamando o X-0 de “descendente espiritual do ZZ”. Ou seja, Takamatsu havia resgatado uma proposta rejeitada ainda em 1986. O fato sugere círculo vicioso: conceitos descartados por estratégia comercial voltam décadas depois como novidade, mas raramente escapam do mesmo crivo mercadológico.

Se a tendência de revisitar drafts engavetados continuar, não surpreenderá ver 2026 recheado de versões “what if” na franquia — e essa possível guinada pode redefinir o valor do colecionismo, pois cada rascunho descartado vira ouro quando a narrativa se rende à metalinguagem do arquivo perdido.

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