Sem esperar o tapete vermelho do filme de Solo Leveling, o manhwa The Beginning After The End (TBATE) saiu na frente e confirmou nesta semana a própria adaptação em anime. É a primeira vez que o título, apontado como “matador de isekai” e rival direto do best-seller de Sung Jin-Woo, recebe sinal verde oficial após cinco anos de especulação intensa.
O anúncio expôs uma tensão que vinha crescendo nos bastidores: plataformas de streaming enxergam a linha de sucessos coreanos como o verdadeiro trunfo para sustentar assinaturas pós-greve em Hollywood. E, agora, a estreia simultânea de dois pesos-pesados coloca Japão e Coreia do Sul numa mesma vitrine — mas em lados opostos da mesa de negociação.
Anúncio repete o modelo “coreano em estúdio japonês”, mas com uma peça nova no tabuleiro
Tal como Solo Leveling, TBATE seguirá o caminho do coprodução: um comitê encabeçado por investidores coreanos terceiriza a animação a um estúdio japonês com mão de obra já treinada. A novidade é que, segundo fontes próximas ao projeto, parte da equipe de pré-produção permanecerá em Seul para blindar a fidelidade visual ao traço de Fuyuki23 — algo que virou dor de cabeça para adaptações anteriores.
Esse controle maior atende a duas pressões. A primeira é do próprio autor TurtleMe, que exige manutenção da cronologia complexa do web-novel original. A segunda vem das plataformas que disputam exclusividade; qualquer salto de roteiro que sacrifique capítulos populares repercute imediatamente no TikTok e mina o hype. O recado é: a margem de erro da animação de webtoons ficou menor depois do caso Jujutsu Kaisen, que perdeu fôlego com polêmicas de produção.
Corrida pela exclusividade: quem fechar primeiro garante meses de conversa social
Executivos de três streamings ouvidos pela reportagem confirmam que a briga pelos direitos internacionais já começou — e antes mesmo de existir teaser público. O cálculo se baseia em métricas de engajamento: TBATE soma mais de 14 milhões de assinantes nas plataformas Tapas e Tappytoon, enquanto Solo Leveling: Ragnarok carrega 15,5 milhões. É praticamente um empate técnico que transforma cada episódio em munição de marketing.
Há um detalhe que passa despercebido ao leitor casual: a agenda de lançamento de TBATE foi posicionada logo após a estreia cinematográfica de Solo Leveling. Nos bastidores, a estratégia é surfar o buzz do rival — se o filme de Sung Jin-Woo reacender a conversa global, o anime de Arthur Leywin chega com o vento a favor para capturar quem busca “o próximo da lista”.
O efeito dominó na produção sul-coreana
Editoras de webtoon, como a Yen Press e a D&C Webtoon, já discutem antecipar anúncios de outros títulos para não ficarem atrás. Artistas independentes relatam aumento de propostas de exclusividade logo após o comunicado de TBATE. Em vez de esperar o sucesso consolidado, os estúdios querem amarrar obras ainda no capítulo 50 — um reflexo direto do medo de perder o “novo Solo Leveling” antes que ele exploda.
Na prática, o espectador brasileiro ganha: 2025 deve concentrar a primeira leva de animes de webtoon lançados quase em tempo real com a publicação digital. Mas também perde, porque a enxurrada de contratos de exclusividade pode fragmentar o catálogo em vários serviços, repetindo o cansaço de quem salta entre apps por causa de esportes ou reality show.
Seja qual for o desfecho, a mensagem está dada. O arranque de TBATE formaliza que a Coreia do Sul não pretende mais ser apenas celeiro de licenças para o Japão; ela quer controlar o pipeline inteiro, da página ao streaming. E, para o público, isso significa que o duelo começado nos cliques de webtoon agora vai ocupar o horário nobre — com ou sem caçador de masmorras à frente.
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