“Se eu voltar, é por The Dark Knight Returns.” Zack Snyder repete a frase há três entrevistas, mas nunca ela soou tão política quanto agora. Na hora em que James Gunn arruma a casa para lançar seu novo DCU, o antigo comandante da Liga da Justiça tenta fincar uma estaca justamente no território que o estúdio acaba de batizar de Elseworlds — histórias à parte da cronologia oficial.
O timing tem sentido: o selo protege Coringa 2 e The Batman – Part II do radar corporativo de bilheterias conectadas, deixando a porta entreaberta para adaptações autorais. Só que Snyder precisaria atravessar três barreiras: o plano de dez anos de Gunn, o contrato de Matt Reeves com um Batman mais jovem e o fantasma de um orçamento que, hoje, ninguém na Warner garante pagar.
Elseworlds é a fresta que Snyder caça
Desde que Gunn anunciou que títulos como The Batman e Coringa viverão fora da continuidade principal, analistas perceberam a senha para versões alternativas de personagens já explorados. The Dark Knight Returns, de Frank Miller, é justamente uma distopia paralela onde Bruce Wayne tem 55 anos e ignora qualquer elo com as sagas atuais. É a narrativa perfeita para não esbarrar no Robin que ainda nem nasceu no DCU.
Snyder, que já homenageou trechos da HQ no confronto entre Ben Affleck e Henry Cavill em Batman vs Superman, sabe que a obra pede liberdade estética: chuva de painéis partidos, narração de telejornais e um Cavaleiro das Trevas mais bruto que o do cinema recente. Dentro do selo, ele escaparia do controle de coesão que Gunn tenta impor, algo semelhante ao que a Marvel ensaia para driblar a própria fadiga.
Cronograma de Gunn, orçamento e idade do herói travam projeto
O problema é que Elseworlds não significa cheque em branco. Executivos ouvidos por veículos da indústria apontam três gargalos que, somados, tornam a aposta de Snyder uma equação delicada:
- Cronograma engessado: o DCU oficial larga em 2025 com Superman: Legacy e pretende lançar dois filmes por ano. Reservar janelas de marketing para um épico paralelo exigiria recuar datas ou canibalizar a própria linha mestra.
- Preço de guerra: The Dark Knight Returns inclui tanques nas ruas, lutas em larga escala e até uma bomba nuclear. Com a Warner cortando custos depois da fusão com a Discovery, estourar US$ 200 milhões num produto “não canônico” vira risco político.
- Bruce Wayne grisalho: a história demanda um Batman veterano, forçando a contratação de um ator acima dos 50 ou o retorno de Ben Affleck por contrato extra. Qualquer escolha precisa conversar com merchandising e séries animadas que focam em versões jovens do personagem.
Some-se a isso o fato de Matt Reeves negociar spin-offs para HBO Max ambientados no universo de Robert Pattinson. Dois Batmans maduros competindo por holofotes confundiriam um público já cansado de multiversos simultâneos.
A carta final de Snyder pode ser a fanbase barulhenta que emplacou o “#ReleaseTheSnyderCut”. Mas, diferente daquela cruzada, o diretor agora não briga por material pronto, e sim por luz verde em um estúdio que trocou de comando e de filosofia. Se o selo Elseworlds nasceu para blindar vozes autorais, também nasceu com teto: ter liberdade, hoje, significa caber no orçamento e não atropelar o calendário. Dentro dessa moldura apertada, Snyder corre contra o tempo para provar que um Batman de 55 anos ainda pode ser trending topic — sem virar uma peça fora do tabuleiro que Gunn tenta reorganizar.

