Um fantasma atravessou o verão japonês — e ele atende pelo nome de audiência. Entre junho e agosto, as buscas por “yūrei” (espíritos) na Crunchyroll subiram 27 %, segundo a própria plataforma, abrindo caminho para lançamentos que já disputam espaço com gigantes do shonen. O movimento, silencioso como um sussurro em Koroko, virou grito quando Netflix, Prime Video e HIDIVE passaram a anunciar, quase em uníssono, aquisições de horror sobrenatural até 2025.
Não se trata de moda espontânea. A corrida tem data e lógica: coincide com o festival Obon, época em que animes e filmes de espírito historicamente ganham maratonas na TV japonesa. Agora, porém, o ritual expandiu-se globalmente — e com uma vantagem que poucos leitores percebem: boa parte do folclore usado nessas séries está em domínio público, barateando direitos e acelerando a produção.
Mercado redescobre o terror espiritual a toque de caixa
A matemática é simples. Terror custa menos que ação explosiva e, quando envolve fantasmas, escapa de efeitos 3D caríssimos. Para estúdios médios como Science SARU e Twin Engine, isso significa libertar orçamentos de até 20 % em relação a uma saga de mechas, segundo estimativas de produtores ouvidos em Tóquio. O resultado é uma safra que vai de remakes de clássicos como “Ushio & Tora” a obras inéditas que misturam j-horror e melodrama colegial.
Plataformas enxergam ainda outro gatilho: o público ocidental cansou de slashers previsíveis, mas mantém apetite por narrativas que brinquem com perdas, luto e culpa. É o mesmo terreno que fez vilões “irrecuperáveis” ganharem estudo de personagem acima da média em títulos recentes. O fantasma, nesse cenário, é menos susto e mais espelho psicológico — e isso fideliza assinantes.
Três séries recentes explicam o fenômeno
1) “Mieruko-chan – Segunda Visão”
A comédia de horror voltou em julho com novo diretor e animação mais fluida. O detalhe técnico que passou batido: os designers criaram 46 modelos exclusivos de entidades, todos inspirados em xilogravuras Edo, o que eleva a diversidade visual sem inflacionar gastos de model sheet.
2) “Mononoke: The Pharmacist Files”
Anunciada para outubro, a sequência resgata pintura ukiyo-e por rotoscopia, técnica rara em TV. O estúdio aposta que o traço artesanal gere boca a boca semelhante ao que deu fôlego a “Black Torch” — citado como trunfo ousado da Crunchyroll no shonen.
3) “After-School Hanako-kun”
Spin-off de “Toilet-Bound Hanako-kun”, chega no exato pico do Obon. Estratégia: cada episódio terá microcliffhangers de 10 segundos para viralizar no TikTok, onde a tag #SchoolGhost já ultrapassou 400 milhões de views, segundo dados da ByteDance.
O que esperar até o Halloween
A janela entre agosto e 31 de outubro deve concentrar mais quatro estreias com temática de espíritos, duas em co-produção com estúdios latinos. Para fãs, é a chance de ver o terror nipônico dialogar com lendas locais — e para o mercado, um teste: medir se o fantasma mantém fôlego fora do verão japonês. Se mantiver, 2025 pode ser o ano em que o susto espiritual ocupará o posto de “fuga zen” reversa, rivalizando até com títulos contemplativos que hoje dominam a busca por calmaria.
Por ora, o recado está dado como um sussurro de yūrei: onde há espírito, há assinante — e nenhuma plataforma quer ficar sem corpo nesse baile.
Acesse diariamente nossas dicas sobre animes e games para não perder nada. Siga também o RadioGeekBR no Facebook!

