Kevin Feige não costuma lavar roupa suja em público, mas, na noite desta terça (4), o chefão da Marvel admitiu que o próximo filme solo do Homem-Aranha saiu completamente da linha: “Tom precisou de um verão inteiro para Nolan e nós tivemos de ceder”. O resultado, segundo o produtor, é que “Spider-Man: Brand New Day” – antes previsto para 2025 – agora só deve alcançar as telas em meados de 2027.
O atraso quebra uma lógica que vinha sendo tratada como bíblica dentro do estúdio: filme do Cabeça de Teia a cada dois anos, turbinando os Vingadores logo na sequência. Mais do que uma data rasurada, a confissão de Feige expõe um dilema novo em Hollywood pós-greve: quando o astro carrega o universo inteiro nas costas, quem dita o ritmo é a sua agenda – e não o calendário bilionário de franquias.
Desvio para Nolan redesenha a Fase 6
Nos bastidores, o “desvio para Tróia” – como executivos da Disney chamam o épico de Christopher Nolan, livremente inspirado em A Odisseia – disparou um efeito dominó. “Brand New Day” alimentaria a subtrama cósmica que desemboca em “Avengers: Doomsday”, já ventilada na linha de brinquedos que sugere perigo mortal para Gambit. Sem Peter Parker disponível, roteiristas correram para enxertar Kate Bishop e o núcleo dos Jovens Vingadores como ponte entre filmes.
A manobra, porém, custa caro. Toda a verba de pós-produção reservada para 2025 migrou para “VisionQuest”, minissérie que rebaixa Ultron e ensaia um novo time de heróis de reserva. Se a aposta falhar no Disney+, “Brand New Day” voltará ao centro das atenções já sem o conforto de ser o motor garantido de bilheteria. Dentro do estúdio, cresce o medo de que a marca sofra do mesmo mal que arranhou “As Marvels” – blockbusters vendidos como evento, mas entregues fora de hora.
Contrato de Holland ganha peso de franquia
A pausa estratégica de Tom Holland para viver Telêmaco – filho de Odisseu – em “The Odyssey” não foi negociada como simples folga artística. Advogados do ator inseriram cláusulas que vinculam bônus de participação às futuras datas de “Brand New Day” e à posição dele no cronograma dos Vingadores. Traduzindo: cada mês de espera encarece o retorno do herói e aumenta o poder de barganha do intérprete.
Feige reconheceu o novo equilíbrio de forças ao admitir publicamente que “o cronograma do MCU precisa respeitar o cronograma de vida dos nossos talentos”. No curto prazo, a Marvel tenta transformar limão em limonada: Holland ganhará crédito de produtor executivo e voz na escolha de vilões, enquanto o estúdio aposta que a experiência dramática com Nolan agregue estofo ao personagem quando o arco do “Brand New Day” finalmente chegar. Se der certo, o atraso será vendido como maturação narrativa. Se der errado, será a prova de que, em 2024, até o Homem-Aranha depende do horário de outro diretor.

