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Totoro volta à mesa: reedição de 2005 aciona nova fase de licenciamento do Studio Ghibli

Quem passou quase duas décadas caçando os pratos e tigelas do Meu Amigo Totoro nas lojas de usados acaba de ganhar um atalho: o Studio Ghibli recolocou nas prateleiras, sem aviso prévio, a coleção de utilidades domésticas lançada em 2005 e esgotada em poucas semanas. A volta é limitada, mas suficiente para provocar filas na rede Donguri Kyowakoku e travar o site oficial já nas primeiras horas de venda.

Mais do que nostalgia, o relançamento expõe uma virada comercial depois que a Nippon TV assumiu o controle do estúdio em setembro passado. O recado é claro: a era do “não mexa no nosso merchandising” terminou, e a cozinha virou o novo campo de batalha para monetizar o catálogo — um movimento que aproxima o estúdio de cases recentes como o da Bandai e seu “Titanic” dos Gunpla, mas com delicadeza bem diferente.

Itens relançados escondem truques de design que só aparecem em uso

O kit reúne cinco peças de cerâmica produzidas em Gifu, num forno que tradicionalmente trabalha para restaurantes kaiseki. O prato raso traz Totoro em baixo-relevo; quando a comida aquece a superfície a 35 °C, a ilustração revela folhas extras em tinta termocrômica. Já o par de tigelas empilháveis forma o contorno integral da criatura — metade no bojo superior, metade no inferior — detalhe impossível de notar em foto promocional.

Completam a linha um descanso de hashi em formato de fuligem (“susuwatari”) e uma colher de arroz cujo cabo imita o tronco da árvore camphor, ícone do filme. Cada item custa entre 1.650 e 3.300 ienes (aproximadamente R$ 55 a R$ 110), mas o estúdio limita a compra a duas unidades por CPF japonês para evitar revenda internacional, o mesmo protocolo usado na miniatura exclusiva de O Serviço de Entregas da Kiki no ano passado.

Por que a cozinha virou a nova fronteira do anime adulto

O Ghibli percebeu que seu público de 1988 agora paga boletos de aluguel — e não vai pendurar pôster na sala de estar, mas aceita investir em peças discretas que sinalizam pertencimento. Essa mudança comportamental também explica o aceleração de streamings como o Tubi na curadoria de anime: o fã “crescido” quer produtos e conteúdos que se integrem à rotina, não apenas colecionáveis de prateleira.

Dados internos da Donguri Kyowakoku indicam que itens utilitários respondem por 42% do faturamento na unidade de Shibuya, superando pelúcias pela primeira vez. A curva coincide com o pós-pandemia, quando jantares caseiros substituíram saídas frequentes. O relançamento testa se o efeito é duradouro e, se confirmar a tendência, abre caminho para linhas inspiradas em A Viagem de Chihiro ainda em 2024, segundo funcionários envolvidos na negociação de licenças.

Na prática, o retorno do kit de 2005 funciona como balão de ensaio: o limite de estoque mantém a aura de exclusividade, mas o maquinário de produção já está dimensionado para rodar em escala caso a resposta extrapole o nicho. Se isso acontecer, Totoro pode não só voltar à floresta, mas ocupar em definitivo o armário de porcelanas de uma geração que trocou o copo de shot da faculdade por um bom chá verde servido com afeto — e, claro, com assinatura Ghibli no fundo da xícara.

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