Sem anunciar nem plano pago, a Tubi — plataforma de vídeo sob demanda financiada por anúncios, controlada pela Fox — colocará no ar ainda este mês um bloco dedicado a anime com mais de 1.300 horas de programação, entre séries clássicas, longas cult e títulos recentes que até então viviam trancados no cofre da Crunchyroll.
A manobra não é só volume: ela inaugura a primeira ofensiva coordenada do chamado modelo FAST (Free Ad-Supported Television) contra um império construído em assinaturas. Se der certo, destrava um efeito dominó que pode mudar janelas de exibição, políticas de dublagem e até o preço de licenças no mundo inteiro, inclusive no Brasil.
Ofensiva FAST chega com franquias de peso e derruba a barreira do paywall
O pacote da Tubi desembarca com cerca de cem produções, das temporadas clássicas de “Naruto” a longas de “Lupin III”, passando por blockbusters como “My Hero Academia: Two Heroes”. Trata-se de um acervo que, somado, passa das 1.300 horas contabilizadas pela plataforma e ficará disponível de graça em um canal 24/7, além do catálogo on-demand.
Os executivos da Fox miram um público que a Crunchyroll, agora de posse da Sony, ainda não conseguiu capturar integralmente: o espectador casual, que aceita propaganda, mas não quer mais um boleto mensal. Segundo análise de mercados FAST, cada hora vista pode render até US$ 0,25 em anúncios — um CPM agressivo, mas sustentado pelo engajamento do nicho otaku.
Outra pedra no sapato da líder global é a amplitude de aparelhos cobertos. Diferente do app da Crunchyroll, limitado a login, a Tubi já vem pré-instalada em smart TVs da Samsung, Roku e LG. Na prática, o anime volta para o mesmo botão do controle remoto que antes ligava a TV aberta, o que recoloca a animação japonesa na zona de zapping que perdeu desde os anos 2000.
Pressão imediata na estratégia de licenciamento da Crunchyroll
Até agora, a Crunchyroll usava contratos de exclusividade temporária para impedir que rivais gratuitos encostassem nos títulos de linha A. O canal FAST da Tubi dribla isso renovando acordos antigos, muitos deles pré-Sony, e montando uma vitrine nostálgica que seduz fãs órfãos de Cowboy Bebop a Berserk. A jogada diminui o valor percebido do “catálogo intocável” que sustentava o preço de assinatura.
Isso acontece no momento em que a própria Crunchyroll testa janelas curtíssimas — a chamada “janela relâmpago” usada para Dragon Ball Super. Se a audiência descobre que pode rever sagas inteiras sem gastar nada, a necessidade de maratonar no dia da estreia cai, prejudicando métricas que justificam a subida de mensalidades.
Há também o risco de um leilão ao avesso. Estúdios como Toei, Pierrot e TMS enxergam no FAST uma vitrine a custo zero: em vez de receber valor fixo da Crunchyroll, ficam com participação na propaganda da Tubi. Para franquias longe das listas semanais, essa pode ser a melhor oferta em anos, o que puxa o tapete de exclusividades futuras.
Brasil vira laboratório para dublagem e janela gratuita
Ainda sem operação oficial no país, a Tubi já negocia com agregadores locais de canais FAST para espelhar o projeto em 2024. O timing coincide com a revisão dos preços de dublagem, hoje o item mais caro na chegada de animes ao português. Se a exibição gratuita pagar a conta com publicidade, estúdios brasileiros voltam ao jogo — cenário oposto ao dos streamings premium, que preferem delay a bancar vozes completas.
Fontes ligadas a distribuidoras afirmam que pelo menos 60% do cesto de 1.300 horas já conta com master internacional em português neutro, o que acelera a liberação. Caso se confirme, o público que lotou sessões únicas de Black Clover no cinema poderá revisitar velhos arcos direto no controle remoto, sem precisar recorrer a assinaturas ou fansubs.
Para a Crunchyroll, o alerta está dado: não basta mais ter a estreia simultânea; é preciso garantir relevância quando o hype baixa. Se a Tubi provar que nostalgia e gratuidade convertem em tempo de tela — e, portanto, em dólares — a guerra do anime passará a ser decidida no intervalo comercial, não no paywall.

