O aviso piscou em 12 segundos de teaser e bastou para redefinir agendas: “Evangelion — New Project Now in Production”. Trinta anos depois da estreia da série original e dois após o último filme fechar o ciclo Rebuild, o estúdio Khara confirmou que uma NOVA animação em formato de série entrou em produção — e desta vez sem anúncio de filme antes ou data de estreia definida.
Mais do que nostalgia, o anúncio joga luz sobre a transição de poder dentro da própria franquia. Hideaki Anno, criador e diretor-símbolo, aparece apenas como “general supervisor”, enquanto uma dupla de quarentões formada por Kazuya Tsurumaki e Mahiro Maeda assume a sala de comando. É a primeira vez que Evangelion testa, no horário nobre da indústria, uma sucessão efetiva de sua mente original.
Sucessão na prática: Khara entrega o manche, mas mantém o checklist de Anno
A decisão de colocar Tsurumaki e Maeda à frente resolve um impasse que se arrastava desde Evangelion 3.0+1.0. Os dois já co-dirigiram trechos dos filmes, porém sempre sob revisão quadro a quadro de Anno. Agora, segundo pessoas ligadas ao comitê de produção, o criador limitará sua intervenção a pontos de tom e macro-estrutura, replicando o modelo que James Cameron usa em Avatar, mas em escala televisiva.
Na prática, o roteiro deverá seguir o esboço escrito pelo próprio Anno ainda em 2022, enquanto a equipe mais jovem decide enquadramentos, ritmo de episódios e integração 3D. O cronograma divulgado internamente fala em 24 capítulos, uso intensivo de Unreal Engine para cenários e uma política de “animação responsável” — lição aprendida após o burnout relatado no fim da quadrilogia Rebuild.
Licitação acirrada antecipa nova batalha Crunchyroll x Netflix
A confirmação de uma série — e não filme — despertou imediato leilão entre plataformas. Executivos da Crunchyroll viajaram a Tóquio na semana passada para apresentar pacote de merchandising, segundo fontes do setor, enquanto a Netflix redobrou a oferta ao incluir direitos de dublagens globais já no primeiro contrato. A disputa lembra o movimento descrito em nosso artigo “Quando o sangue vale assinatura: por que os animes mais violentos viraram troféu dos streamings”.
Apesar de ainda não haver assinatura, a Bandai Namco, dona dos brinquedos licenciados, pressiona por um acordo internacional amplo que permita lançamento simultâneo de action figures — estratégia já testada com sucesso em Demon Slayer, cuja montanha-russa de produtos foi tema de reportagem recente. O timing parece calculado: junho de 2025 marca 30 anos da exibição do episódio 1 no Japão.
O que o teaser de 12 segundos revela (e esconde)
Embora curto, o trailer contém pistas visuais que fãs destrincharam em horas. A mais gritante: o letreiro “Neon Genesis” não aparece. Em seu lugar, apenas “Evangelion New Project”, sinal de que a narrativa pode se passar fora da cronologia clássica e da linha Rebuild. Um frame mostra Tóquio-3 em ruínas cobertas por vegetação, estética próxima ao epílogo alternativo sugerido no storyboard de 3.0+1.0, nunca animado.
A iconografia dos novos EVAs também foge ao tradicional: o que parece ser a unidade-01 surge com armadura branca e símbolos vermelhos remetendo ao Sefer Yetzirah — texto cabalístico que Anno queria usar em The End of Evangelion, mas cortou por excesso de camadas simbólicas. É detalhe que reforça a tese de que a série resgatará conceitos abortados nos anos 90 para dinamitar expectativas do público contemporâneo.
Sem data de estreia, a produção deve ocupar, no mínimo, todo o ano fiscal 2024-25. Ainda assim, o anúncio já reorganiza a vitrine de animes de alto orçamento e coloca a dupla Tsurumaki-Maeda no microscópio. Se conseguirem entregar um Evangelion relevante sem o controle obsessivo de Anno, a franquia prova que pode atravessar gerações — e, de quebra, redirecionar milhões em acordos de streaming numa indústria que nunca teve tanto anjo nem tanto demônio em jogo.
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