Quatro anos depois de ter sido comprada pela Microsoft, a Compulsion Games surpreendeu o mercado ao anunciar que recuperou a própria autonomia e já abriu rodadas de conversa com potenciais parceiros para concluir South of Midnight, seu próximo grande jogo. O movimento, comunicado aos funcionários no fim da semana passada, ocorre justamente quando a Xbox Game Studios acelera cortes de orçamento e realinha prazos internos.
O que parecia um divórcio amigável esconde uma corrida contra o tempo: sem o financiamento do conglomerado de Redmond, o estúdio de Montreal precisa provar a investidores que vale bancar uma aventura single-player em um mercado dominado por serviços recorrentes. Nos bastidores, ao menos três publishers de médio porte sondaram a equipe canadense nas últimas 48 horas.
Rompimento revela fissura na estratégia de exclusividades da Microsoft
A decisão da Compulsion foi tratada como “recompra amistosa”. Fontes que participaram das reuniões afirmam que a Microsoft optou por liberar o estúdio após constatar que South of Midnight não caberia no novo foco da divisão: projetos menores, baixo risco e forte integração com o Game Pass. A ruptura, portanto, expõe uma tensão crescente entre criativos que pedem ciclos mais longos e a controladora, que aperta gastos depois de fusões bilionárias.
Na prática, a saída corta um canal de investimento que, segundo executivos, já tinha consumido perto de 25 milhões de dólares. O valor cobre pré-produção, protótipos internos e os trailers mostrados em 2023, mas representa menos da metade do necessário para lançar um AAA multiplataforma. Sem um acordo rápido, o jogo corre o risco de virar mais um “vaporware” citado por críticos da marca Xbox.
A mudança também reforça o debate sobre exclusividade: se o desenvolvimento prosseguir, South of Midnight deixará de ser um título born-Xbox, podendo estrear em PlayStation e até Switch 2. O recuo ecoa a reação negativa que obrigou a Ubisoft a rever a defesa pública das microtransações, mostrando que o peso da opinião comunitária volta a ganhar força depois de anos de “plataformização” agressiva.
Estúdio negocia modelo híbrido para manter IP e dividir receita
Com 90 funcionários e base no Canadá, a Compulsion não quer repetir o enredo de 2018, quando vendeu tudo para a Microsoft em troca de estabilidade. Desta vez, o CEO Guillaume Provost propôs um modelo híbrido: o parceiro injeta capital, mas a propriedade intelectual permanece com o estúdio, que cede prioridade de publicação por tempo limitado. A ideia seduz distribuidoras que buscam novas marcas sem precisar arcar com 100% do risco.
Pessoas próximas às conversas citam a Private Division, braço da Take-Two para jogos autorais, e a Focus Entertainment entre os interessados. Há ainda uma oferta de cofinanciamento de um serviço de streaming asiático, de olho em exclusividade temporária para PC. A pauta ESG também pesa: manter empregos em Montreal garante incentivos fiscais canadenses que podem cobrir até 37% da folha salarial.
Dentro do estúdio, o cronograma foi reescrito. Arte conceitual segue em produção enquanto programadores migram a build para a Unreal Engine 5.3, o que reduz custos de licenças e facilita porte futuro. Já a equipe de narrativa, conhecida por We Happy Few, voltou ao rascunho para cortar segmentos que exigiriam captura de movimento de alto custo. O objetivo é apresentar um vertical slice jogável até setembro e, assim, selar o contrato antes da temporada de grandes conferências.
Por que isso importa agora
O caso Compulsion serve de termômetro para duas tendências opostas que se chocam em 2024. De um lado, gigantes como Microsoft e Sony recuam em projetos arriscados para proteger margens — basta lembrar o silêncio da Sony nas redes ao encarar a revolta contra o fim dos discos. Do outro, estúdios médios redescobrem que liberdade criativa pode valer mais que folha de pagamento garantida.
Se a equipe canadense conseguir dinheiro sem abrir mão da IP, abrirá precedente para outros grupos adquiridos no boom pré-pandemia pedirem a própria liberdade. Caso fracasse, reforçará a tese de que o tempo dos estúdios independentes de médio porte acabou, espremido entre indies enxutos e megafranquias com orçamento de Hollywood. Para jogadores, o resultado definirá se South of Midnight chega às lojas como obra autoral ou como mais um exclusivo perdido na prateleira de promessas não cumpridas.
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