Tanjiro Kamado já sobreviveu a um trem demoníaco e a luas superiores, mas agora ele encara um inimigo ainda mais exótico: o fundo da banheira. A Numskull, dona da linha TUBBZ, anunciou patinhos de borracha oficiais de Demon Slayer que vestem Tanjiro e Nezuko com o mesmo zelo que o estúdio Ufotable dedica aos quadros da série.
Pode parecer só mais um colecionável curioso, mas o movimento expõe um traço do mercado de anime que cresceu silenciosamente: o de itens “não óbvios” — produtos que fogem das prateleiras de figures tradicionais e empurram as marcas para dentro de rotinas cotidianas como escovar os dentes ou tomar banho. E, no rastro do susto, vem a pergunta que vale mais que a conversão do iene: até onde as licenças vão para não deixar a febre de Kimetsu esfriar?
Licenciamento de anime já chegou à pia do banheiro
A TUBBZ construiu reputação transformando ícones pop — de Transformers a Sonic — em patinhos numerados e empacotados como mini cofre. Agora, com Tanjiro e Nezuko, a marca injetou pela primeira vez um shonen japonês no catálogo. Cada peça mede nove centímetros, vem com base empilhável em formato de banheira e terá tiragem limitada a 3 000 unidades, segundo a distribuidora britânica Geek Store.
O preço de lançamento, 24,99 libras (cerca de R$ 160 antes dos impostos), não assusta quem já paga mais de R$ 400 em um nendoroid, mas mostra que o cenário de “luxo acessível” se espalhou por frentes inusitadas. O mesmo padrão apareceu no hambúrguer roxo temático de Evangelion com o KFC e no Optimus Prime transparente citado como novo troféu premium de colecionador. A lógica é simples: quanto mais lugares o fã esbarra na marca, maior a longevividade da conversa — e do faturamento.
Para a Aniplex, que gerencia o licenciamento global de Demon Slayer, o patinho cumpre função estratégica: mantém o IP visível entre temporadas do anime e à espera do arco do Hashira da Serpente no cinema. É o mesmo raciocínio que coloca, hoje, o jogo móvel e o musical oficial rodando simultaneamente. Afinal, se o telespectador troca de aba quando o streaming atrasa — caso recente da pausa de luxo em Bleach —, o objeto físico continua na estante (ou na banheira) lembrando quem é o herói do momento.
Do patinho premium ao bolso do fã brasileiro
No Brasil, o colecionável só chega via importação, e as contas apertam. Com IOF e frete internacional, cada pato pode ultrapassar R$ 300, valor que esbarra nos 60% de imposto de importação na alfândega. Ainda assim, a Toyshow e outras lojas especializadas sondam pré-venda; o histórico de esgotamento rápido dos TUBBZ de Resident Evil indica que a demanda não deve faltar.
Esse cenário reforça um dilema já visto na discussão sobre a posse digital de animes, reacendida quando a Crunchyroll iniciou o apagão das compras da Funimation: até que ponto vale investir em algo que pode sumir de um clique? A indústria responde apostando em objetos tangíveis, mesmo que isso exija abrir a carteira em libras, dólares ou ienes. O patinho de Tanjiro talvez nunca entre em combate, mas leva para a banheira a mesma sensação de permanência que um box de DVD tinha nos anos 2000.
Se o colecionador morder o anzol — ou melhor, o bico —, não será surpresa ver outras séries correndo para a espuma. Afinal, entre um demônio decapitado e um pato de borracha estilizado, o que realmente assusta os estúdios é ficar fora do radar por um único banho.
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