Faltam menos de 48 horas para que Gon, Killua e companhia desapareçam da tela inicial da Netflix Brasil. O aviso de “último dia para assistir” encerra duas temporadas e uma dublagem que a plataforma manteve por quase quatro anos, atingindo um público que sequer tocava em serviços especializados em anime.
Mais do que a perda de um título querido, a retirada de Hunter x Hunter sinaliza um movimento mais profundo: a janela de licenciamento de grandes séries japonesas está encolhendo e passando a orbitar, cada vez mais, o mesmo polo — o conglomerado Sony, dono da Crunchyroll, da Funimation e agora aliado ao PlayStation Plus, como mostrado no cruzamento que liberou Dragon Ball e Naruto sem custo extra. A pergunta que fica não é se outro anime sairá da Netflix, mas quando.
Saída de Hunter x Hunter escancara a janela curta de licenças na Netflix
Internamente, executivos da indústria falam em ciclos de 18 a 24 meses para renovações — metade do que vigorava cinco anos atrás. Hunter x Hunter estreou na Netflix em junho de 2020, período em que o serviço investiu pesado em dublagens para fidelizar o público brasileiro. O contrato venceu no fim de maio, mas a prorrogação automática, prática comum até 2022, não aconteceu. Resultado: quem abre o app hoje encontra o relógio de contagem regressiva para 23h59 de sábado, 22.
O impacto é maior do que parece. Segundo analistas de dados que monitoram top 10 diários, o anime chegou a ocupar a terceira posição geral de séries em agosto de 2021, impulsionado pelo algoritmo de recomendação da própria Netflix — feito raro para uma produção de 2011, fora do radar de lançamentos semanais. Essa visibilidade foi determinante para atrair novos leitores ao mangá e impulsionar produtos da franquia nas lojas físicas.
Dominância da Sony transforma licenças de anime em leilão silencioso
Com a fusão Crunchyroll–Funimation, a Sony controla mais de 40 % do catálogo de animes disponíveis legalmente no Ocidente, de acordo com consultorias especializadas. E o grupo adota cláusulas de exclusividade que encarecem (ou tornam inviável) a permanência de títulos em rivais generalistas. Foi assim com Attack on Titan, Jujutsu Kaisen e agora Hunter x Hunter: todos terminaram concentrados na Crunchyroll semanas depois de vencer o contrato com a Netflix.
Essa mudança não afeta só o streaming; atinge também jogos e brinquedos. A Bandai, que licencia figures de Hunter x Hunter, já negocia pacotes que cruzam mídia física e digital. Esse arranjo faz sentido quando se olha para a ofensiva “Age of the Primes” da Hasbro, citada no relançamento de Megatron, ou para o interesse renovado no medieval após a febre dos cavaleiros de anime. O ecossistema inteiro se reorganiza em torno de quem detém o stream principal.
O que sobra para o fã brasileiro
- A Crunchyroll continuará exibindo os 148 episódios, mas apenas legendados; a dublagem da Vox Mundi, que ganhou elogios pela voz de Hisoka, fica temporariamente órfã.
- Colecionadores contam com os Blu-rays importados, caros e sem legenda em português.
- Fansubs ganham terreno — apesar da pressão policial cada vez maior, como mostrou a prisão de um uploader do Nyaa.
Volta não está descartada, mas o jogo mudou de lado
Nos bastidores, agentes de licenciamento afirmam que a Netflix ainda negocia um “pacote shonen” para 2025. A diferença é que, agora, os direitos chegariam já fragmentados: Netflix exibiria só a dublagem, enquanto a Crunchyroll ficaria com o simulcast de possíveis episódios novos, caso o mangá retome ritmo. Essa solução híbrida explicaria o silêncio do serviço sobre uma eventual segunda temporada dublada.
Enquanto isso, a migração de Hunter x Hunter para a Crunchyroll tende a aprofundar o funil que afasta o público casual do anime — e, paradoxalmente, inflar ainda mais o poder de barganha do grupo Sony. Para o espectador brasileiro, restam 48 horas para uma última maratona na Netflix e a constatação de que o próximo adeus pode chegar antes do que se imagina.
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