O primeiro trailer oficial de Orbitals abriu a vitrine do Switch 2 com um soco de nostalgia: garotas mágicas transformam-se em pilotos de mechas colossais, tudo chegado num “mundo acaba amanhã” que cheira a Evangelion. Em 92 segundos, a Nintendo deixou claro que seu novo console não dependerá apenas de Mario — vai partir para a memória afetiva dos otakus que compraram fita pirata de Sailor Moon nos anos 90.
Trata-se de mais do que fan-service. Ao chamar o projeto de “carta de amor ao anime oitentista”, o estúdio independente responsável — batizado de Orbitals’ Development Team pela própria Big N — admite que mirou o público que hoje assina Crunchyroll, compra o Totoro de R$ 3,5 mil e lota sessões de relançamento de Evangelion no cinema. É a mesma fatia que a plataforma de streaming usa como escudo em sua guerra de catálogos; agora, a Nintendo quer convertê-la em early adopters do hardware.
Gameplay traz transformação mágica antes do cockpit de mecha
A demo mostrada a portas fechadas na Gamescom revelou duas camadas de jogabilidade. Primeiro, uma sequência em estilo brawler 2.5D na qual a heroína Kana ativa broches reluzentes, roda pelo ar e troca de uniforme como uma autêntica Sailor. Em seguida, o cenário colapsa e a câmera mergulha num combate tático por turnos dentro de um robô bípedo com ombros inspirados no EVA-01.
Essa troca de escala, que lembra a passagem de overworld para batalha nos JRPGs de 16 bits, não é mero charme retro: segundo os produtores, foi pensada para explorar o SSD do Switch 2, capaz de carregar dois motores gráficos simultâneos. O resultado é uma transição sem loading perceptível — trunfo técnico que, se confirmado na versão final, pode colocar Orbitals na mesma prateleira de impacto que Zelda: Breath of the Wild teve no Switch original.
Nostalgia anime vira estratégia central do lançamento do console
A decisão de anunciar Orbitals antes mesmo de um novo Mario revela cacife. Internamente, a Nintendo reconhece que o mercado japonês envelheceu com Dragon Ball e não vibra mais tanto com mascotes saltitantes. Enquanto a Sony prepara o sucessor de Ghost of Tsushima e a Microsoft corre atrás de conteúdo local, a casa de Kyoto aposta em “anime first” para defender sua base histórica.
A jogada também é um antídoto para o calendário enxuto do primeiro ano de hardware. Diversos estúdios ainda finalizam adaptações para a arquitetura do Switch 2, mas um exclusivo produzido in-house garante vitrine constante nos eventos de 2024. A manobra ecoa a ofensiva premium da Hasbro em Transformers e a nova safra de games cozy, que recuperam estéticas antigas para atrair bolsos atuais.
Detalhe que passou batido: veteranos de trilhas sonoras cult estão no projeto
Entre as notas de imprensa, um item quase invisível chamou atenção de quem leu até o rodapé: o time de áudio de Orbitals conta com dois compositores que trabalharam em remixes oficiais de Evangelion para pachinko no início dos anos 2000. O currículo pode soar obscuro, mas garante acesso a bibliotecas de samples licenciados — inclusive o icônico coral sintetizado que abriu Cruel Angel’s Thesis. Se ele aparecer em uma boss battle, a internet explode.
Com janela de lançamento apontada para março de 2025 e promessas de multiplayer cooperativo local — cada jogador controlando uma parte do mecha, ao estilo Love Letter to Ultraman — Orbitals já se posiciona como conversa obrigatória no circuito de cultura pop. Se entregar o que promete, o Switch 2 começará a vida não com um encanador bigodudo, mas com um lembrete ruidoso de que o anime dos anos 90 nunca ficou para trás — só estava esperando processamento suficiente para brilhar outra vez.

