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Bleach sem enrolação: como 163 episódios extras viraram lição definitiva para o retorno do anime

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Quando Bleach voltou no fim de 2022 com o arco Thousand-Year Blood War, nenhum fã precisou perguntar se haveria fillers. A resposta já estava impressa na missão do estúdio Pierrot: zerar a gordura que transformou o anime original num manual involuntário de tudo que um roteirista deve evitar quando o mangá entra em hiato.

Ao longo de 366 capítulos, 163 foram inventados do zero — o dobro de Naruto e mais que o triplo de One Piece na mesma janela. O trauma foi tão grande que hoje sites e plug-ins de navegador entregam um “botão pular filler” automático, e a recém-criada lista oficial circula entre plataformas de streaming como cláusula contratual para maratonas relâmpago.

Filler demais, audiência de menos: a cicatriz que sangra desde 2006

O estopim veio em 2006, quando o mangá de Tite Kubo encostou na cronologia televisiva. Sem capítulos suficientes para adaptar, a TV Tokyo aprovou o arco dos Bount (64-108) em regime de produção relâmpago. Era para segurar três meses; durou quase um ano inteiro, espantou 18% da audiência nipônica e empurrou a série para o temido slot de terça-feira, onde animes vão para agonizar.

A estratégia se repetiu em 2008 com o arco do capitão Amagai (168-189) e, depois, com Zanpakutō: Unknown Tales (230-265). Cada investida salvava empregos de animadores, mas sacrificava coerência. A essa altura, fóruns já organizavam planilhas de “episódios puláveis” que, anos depois, inspirariam plataformas a criar filtros internos — a Crunchyroll foi a primeira a adotar a marcação “anime-original”, movimento que se intensificou quando a Sony unificou catálogo de games e animação, como mostrado na matéria “Sony junta PlayStation Plus e Crunchyroll e libera Dragon Ball e Naruto sem custo extra”.

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Os 12 episódios que escapam da lixeira — e por quê

Ninguém precisa assistir a 163 capítulos para entender Bleach, mas jogar tudo fora também apaga pérolas que expandem personagens ou entregam ação inédita. No levantamento deste portal, doze entradas resistem ao corte cirúrgico:

  • 33 – Kon tenta virar herói e expõe a vida civil de Karakura; comédia 100% afinada com o mangá.
  • 66 – Renji treina no mundo real e dá prévia da Bankai antes da saga Arrancar.
  • 95 e 96 – Hitsugaya encara Kariya em lutas coreografadas pelo veterano Hiroyuki Yamashita, depois promovido em Boruto.
  • 132 e 133 – Ikkaku decide jogar futebol; piada interna que antecipa a obsessão japonesa por esporte em animes.
  • 147 – Isshin Kurosaki enfrenta Grand Fisher em forma de Hollow, revelação que o mangá só faria anos depois.
  • 171 – Kenpachi versus Byakuya, fan-service assumido, mas com animação superior à média da temporada.
  • 206 – Flashback da juventude de Urahara, ponte direta para o arco Turn Back The Pendulum.
  • 228 – Episódio da praia; virou meme, porém acertou no design de trajes que renderam linha de figures oficiais.
  • 287 – Kyoraku dá aula tática contra um Arrancar filler e inspira reedições de baralho temático da série.
  • 342 – Despedida do personagem Nozomi, único filler a receber encerramento exclusivo cantado por SCANDAL.

Cada um desses episódios apresentou ganho estético, foreshadowing ou impacto mercadológico — critério que faltou ao restante do material extra. É justamente essa curadoria que norteia os boxes Blu-ray remasterizados vendidos no Ocidente, agora sem arcos Bount ou Amagai, mas mantendo os doze capítulos listados.

Da lista de pular ao produto premium: o filler como ferramenta de mercado

Se em 2006 o filler era remendo, em 2023 ele virou métrica de engajamento. A Netflix só renovou Bleach até 229 depois que algoritmos apontaram queda brusca quando começa Zanpakutō: Unknown Tales — comportamento semelhante ao registrado na saída repentina de Hunter x Hunter, assunto destrinchado na reportagem “Hunter x Hunter some da Netflix e expõe o xadrez de licenças”.

Produtoras também entenderam o recado. Quando o Ministério da Justiça japonês prendeu um uploader do Nyaa, a Shueisha notou que os episódios mais pirateados eram justamente fillers, por serem raros em streaming. A repressão descrita em “Prisão de uploader do Nyaa muda alvo da polícia” mostrou que até material “descartável” tem valor de arquivo — e lucro potencial — se posicionado como conteúdo de colecionador.

No fim, a lição que Bleach entregou ao próprio Bleach é simples: nada substitui planejamento de cronograma. O novo arco adaptado pelo estúdio Pierrot foi produzido inteiro antes da estreia, sem necessidade de borracha narrativa. Para o público, isso significa ritmo constante; para o mercado, significa que a próxima lista de “pular” talvez nunca precise ser escrita.

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