Quem viveu a explosão pós-apocalíptica de 1995 provavelmente lembra do roxo fosco, dos chifres alongados e da mandíbula quase animal da Unit-01. Vinte e nove anos depois, esse desenho “imperfeito” retorna intacto — nada de placas extras ou detalhes cromados — no novo kit high-end da linha Blokees, já esgotado na pré-venda japonesa.
O relançamento acena para muito mais do que um mimo saudosista: ele indica que a Khara entendeu o poder de abrir o cofre do passado num momento em que franquias rivais, como o novo Gundam, empurram designs inéditos para a próxima década. A escolha de voltar ao traço cru da TV sugere uma guerra silenciosa entre nostalgia e reinvenção — e o fã, no fim, paga por ambas.
Reedição premium confirma corrida milionária pela memória afetiva
Blokees, divisão de kits para colecionadores acima dos 30, cobrou o equivalente a R$ 1,1 mil pelo pacote que quase não exige tinta nem lixamento. O preço assusta, mas segue a curva dos últimos dois anos: articulados “vintage accurate” de franquias dos anos 1990 subiram 40 % no mercado asiático, segundo estimativa interna de lojistas de Akihabara. A fórmula é direta — menos redesign, mais fidelidade fotográfica ao VHS.
O movimento também amplia a diversificação de receita da Khara. Depois de encerrar o ciclo de filmes Rebuild em 2021, o estúdio vinha apostando em licenciamento de alto giro, de camisetas a bancos de carro. Agora, ao aprovar um molde que rejeita o polimento digital dos longas, a empresa mostra que pode operar duas linhas de produtos sem canibalizar público: o colecionador nostálgico e o espectador que conheceu Shinji pelo streaming.
Unit-01 raiz reacende disputa estética entre TV clássica e rebuilds
A diferença visual é sutil no papel, mas brutal na prateleira. No design de 1995, o tórax da Eva forma um “V” negativo, criando silhueta mais orgânica; já nos rebuilds, placas sobrepostas empurram o peito para fora e sugerem armadura de mecha tradicional. Ao privilegiar o molde antigo, Blokees questiona a própria canonização dos filmes, que buscavam padronizar todas as licenças futuras.
Esse cabo de guerra não é novo. Em 1997, Evangelion: Death & Rebirth já remixava cenas da série para criar um “recap blockbuster” e vender ingressos repetidos. O kit atual, porém, vira o jogo: pela primeira vez em anos, o licenciamento oficial dá status de peça de luxo a um design que, até então, sobrevivia em estandes de feira indie.
Por que a Khara liberou o molde agora
- Janelas de receita: sem filme anunciado, o estúdio precisa de produtos que não dependam de nova animação.
- Calendário simbólico: 2025 marca 30 anos da estreia na TV Tóquio; antecipar o item cria buzz antes da avalanche comemorativa.
- Teste de mercado: se a nostalgia vender mais que as versões rebuild, modelos da Unit-02 e Unit-00 no mesmo estilo podem formar linha contínua.
Mais do que atiçar a vaidade do colecionador, o retorno do roxo fosco da Unit-01 sugere que Evangelion passa a explorar seu passado com a mesma sofisticação com que reinventou o futuro. Caso a aposta renda, a franquia pode ter descoberto um filão eterno: vender, simultaneamente, a lembrança agridoce dos anos 90 e o desejo de novidade que sempre a manteve viva.
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