O clarão dourado que em 1994 dividiu fãs entre euforia e estranhamento vai voltar a ofuscar prateleiras. Três décadas depois de “G Gundam” inventar o Hyper Mode — estágio reluzente que transformava o robô numa estátua de ouro em plena batalha — a Bandai anunciou uma action figure totalmente banhada em metalizado para celebrar o 45º aniversário da franquia.
Não se trata de mero repintado: o modelo, que chega à linha Metal Build em novembro, traz armação interna toda em liga de zinco, placas externas com galvanização real e um sistema de luzes no reactor central. É a primeira vez que a empresa investe nesse acabamento de luxo para um conceito que, durante anos, foi tratado como “excesso super-robot” dentro do universo mais sóbrio de Gundam.
G Gundam brilha (de novo) na linha Metal Build
A escolha do emblemático God Gundam — culminação dos Mobile Fighters da série — não foi casual. Segundo engenheiros da Bandai Spirits, a estrutura recebeu 300 pontos de articulação, permitindo recriar cada pose de artes promocionais dos anos 1990, incluindo o golpe final em que o mecha explode num halo dourado com as mãos unidas.
O preço acompanha o brilho: 38 000 ienes no Japão, algo em torno de R$ 1 300 antes de impostos e frete. No exterior, a peça será distribuída pela Tamashii Nations Store, que já ensaiou edições limitadas semelhantes para “Mazinger” e “Evangelion”. A prática segue a mesma lógica testada pela Hasbro ao lançar um Autobot inédito como kit exclusivo — estratégia que discutimos em reportagem recente.
Por que o dourado vale mais que nostalgia hoje
Nos anos 1990, o Hyper Mode foi visto por puristas como heresia: trocava a aura bélica e politizada da saga por duelos de artes marciais e explosões de cor. Hoje, justamente essa “exagerada” identidade vira trunfo comercial. A Bandai mira o público que cresceu dentro do boom de animes de luta — o mesmo que celebrou o golpe de Minato em “Naruto”, tema de nosso artigo sobre a animação shonen.
Há outro detalhe que o fã distraído talvez não perceba: a volta do Hyper Mode serve de laboratório para tecnologias de acabamento que a Bandai planeja aplicar em lançamentos do 50º aniversário, quando modelos lendários como o Nu Gundam e o Wing Zero podem ganhar versões igualmente metalizadas. E, se a recepção repetir o sucesso da figura de Sung Jinwoo em escala de luxo — destaque da Hot Toys analisado aqui — a corrida por edições “all gold” deve se tornar mais agressiva entre fabricantes asiáticos.
Teste de demanda para conceitos polêmicos
Ao ressuscitar um design considerado fora da curva, a Bandai mede a temperatura do colecionismo de alto tíquete que topa reescrever a hierarquia canônica em troca de brilho e exclusividade. Caso o God Gundam Hyper Mode esgote em pré-venda — cenário provável, segundo lojistas — a empresa ganha sinal verde para reabilitar outras ideias “cult” do passado, como as Mobile Dolls de “Gundam Build Divers” ou até os controversos “G-Savannah” de “Turn A”.
Na prática, quem dita se essas apostas avançam é o cartão de crédito do fã adulto, disposto a pagar caro por uma peça que, 32 anos atrás, era chamada de exagero infantil. O novo Hyper Mode, portanto, não relembra apenas um visual chamativo: ele expõe quanto o gosto mudou — e quanto as fabricantes aprenderam a capitalizar em cima disso.

