Quando Miles Morales descobre, em Across the Spider-Verse, que a teia do multiverso exige certas tragédias chamadas “eventos canônicos”, a animação não está apenas criando regra para si mesma: ela abre caminho para o sacrifício de um personagem muito vivo na linha de Tom Holland. E, diferentemente da morte de Tia May, esse funeral pode ser planejado antes mesmo de o próximo roteiro do MCU existir no papel.
Executivos dos dois lados — Sony e Marvel Studios — já admitem nos bastidores que a próxima trilogia do Aranha mira livremente o arco Brand New Day, fase em que Peter Parker tenta reconstruir a vida após ser esquecido por todos. A coincidência de o filme animado formalizar a necessidade da perda de “um capitão próximo” não passou despercebida: no MCU, o único candidato inédito a esse posto é justamente o novo interesse amoroso que deve surgir para preencher o vácuo deixado por MJ, agora sem memória.
Brand New Day exige uma morte que o MCU ainda não entregou
Nos quadrinhos, Brand New Day só encontra sentido depois de um baque específico: a morte de um aliado que veste farda ou crachá de autoridade — o capitão Stacy nos anos 1970, o capitão George em versões posteriores. No universo de Holland, nenhum capitão caiu; o vazio dramático é tão flagrante que Kevin Feige vem sinalizando, em reuniões com roteiristas, a necessidade de um choque “tão definitivo quanto a cena da ponte em No Way Home”.
É aqui que o conceito de “evento canônico” vira ferramenta conveniente. Bastou a animação explicar que mortes importantes mantêm a coesão da linha do tempo para que o núcleo live-action contasse com uma justificativa pronta quando chegar a hora de eliminar a próxima peça. A engrenagem já começou: um leak de set LEGO, previsto para 2027, inclui minifiguras de um novo capitão ao lado de Peter e de Miles, sugerindo que os estúdios trabalham a mesma cartilha.
Por que a perda anunciada muda o jogo de Tom Holland
Desde Homem-Aranha: De Volta ao Lar, a jornada de Holland foge das repetições trágicas dos antecessores — nada de Ben Parker ou Gwen Stacy ensanguentados. Essa diferença deu fôlego à marca, mas também afastou o herói de um amadurecimento clássico. Matar o futuro par romântico atende a dois objetivos: coloca o MCU em sincronia com a lógica interdimensional do Spider-Verse e devolve a Parker a melancolia que impulsiona grandes viradas, exatamente como a Marvel fez ao encerrar a era dos Vingadores originais.
Para o público, a pista pode soar só como easter egg, mas nos corredores da Marvel Studios ela vale ouro: serve de antídoto contra o cansaço narrativo apontado por pesquisas internas. Se a primeira trilogia mostrou o “Aranha estudante”, a nova fase precisa do “Aranha marcado por luto”, estado que abre portas para participações adultas — de Kraven a Felicia Hardy — e reposiciona o herói ao lado do núcleo mutante, movimento confirmado pela pressa em aproximar Tempestade de Monica Rambeau, como revelado recentemente.
O detalhe que passa batido? A animação, livre do cronograma de live-action, pode matar primeiro — e, na prática, patentear a dor para si. Se isso acontecer, a versão de Holland terá de se virar para chocar de outra forma, sob o risco de parecer cópia tardia. De um jeito ou de outro, o Spider-Verse já pregou o aviso na parede: ninguém escapa da lei dos canônicos, muito menos o Aranha mais rentável da Marvel.

