Não é só mais um longa no calendário lotado de 2027: o próximo filme de Pokémon, oficialmente agendado para aquele ano, selará o fim da era Ash Ketchum e romperá com o formato de batalhas que sustentou a marca desde 1998. A The Pokémon Company confirmou que o herói de boné e seu Pikachu não aparecem nem como fan-service — primeira ausência total em quase três décadas de tela grande.
O anúncio, que parecia apenas mais uma peça de marketing, revela na prática um movimento estratégico: o estúdio troca o rosto da franquia e testa uma dinâmica de combate inédita justamente quando a concorrência dos cinemas de anime promete seu ano mais barulhento. A disputa inclui One Piece, Demon Slayer e outros gigantes, criando o palco perfeito para Pokémon provar que ainda dita tendência.
Filme aposenta Ash e faz da série Horizons o novo ponto zero
Internamente, o roteiro de 2027 é tratado como “Horizonte Completo”, referência direta aos protagonistas Liko e Roy da série Pokémon Horizons, já exibida na TV japonesa sem Ash. A migração para o cinema serve como batismo canônico dos novos heróis e transforma um spin-off em linha principal. É a mesma lógica que Black Clover ensaiou com sua sessão única nos EUA, mas em escala global.
Do ponto de vista de negócios, a escolha fecha a torneira de nostalgia que sustentava produtos focados no par Ash-Pikachu e abre espaço para uma geração de bichos e treinadores que a Nintendo pretende explorar até a década de 2030. Licenças de brinquedos, cards e apps já estão sendo redesenhadas para trocar o amarelo elétrico do mascote por paletas ligadas ao trio dos starters da décima geração, ainda mantidos em sigilo.
Novo sistema de combate mira experiência de mundo aberto
A grande ruptura não é só de elenco. O filme testará em animação a mecânica “Campo Vivo”, inspirada nos mapas abertos de Scarlet & Violet, onde posição, relevo e clima alteram o resultado do golpe. É o oposto do ringue estático que marcou as aventuras de Ash. Se o público comprar a ideia, o modelo deve migrar para os games de 2028 e para o competitivo oficial, segundo pessoas envolvidas na pré-produção.
Para acomodar o conceito, o longa usará câmeras virtuais que trafegam 360° pelos cenários, algo incomum em anime tradicional. O movimento dialoga com a tendência de “canivete suíço” dos colecionáveis apontada na análise sobre o mecha de Zeta Gundam: a indústria quer produtos que mudem de forma e contexto sem perder a essência.
Ano de superlotação nos cinemas força Pokémon a arriscar
One Piece Film: God Valley, o épico final de Demon Slayer e o aguardado retorno de My Hero Academia já têm janelas reservadas para 2027. Em condições normais, Pokémon se esconderia atrás da nostalgia de Ash para garantir bilheteria. Sem esse escudo, a marca aposta na ruptura para virar manchete e, de quebra, atrair o público que começa a sentir fadiga de fórmulas repetidas.
O timing ajuda. O vigésimo quinto aniversário de A Viagem de Chihiro volta aos cinemas em breve e reacendeu o gosto por experiências teatrais de animação clássica, como detalhamos na matéria sobre a estratégia da Ghibli. Ao anunciar uma guinada agora, Pokémon se coloca na conversa sobre o “novo velho” cinema japonês: filmes que honram a história, mas recusam viver dela. Se a jogada der certo, 2027 será lembrado não só como o ano mais concorrido do anime, mas como o marco zero da segunda vida de um dos maiores ícones pop do planeta.

