Na manhã desta terça-feira, funcionários da Build a Rocket Boy lotaram o Slack interno com mensagens de despedida: boa parte da equipe que desenvolvia o ambicioso shooter narrativo MindsEye recebeu aviso prévio. É a segunda onda de cortes em menos de cinco meses e, segundo relatos obtidos pelo portal, a direção já admite a possibilidade de dissolução completa do estúdio fundado por Leslie Benzies, ex-presidente da Rockstar North e peça-chave de GTA V.
O choque vai além do drama trabalhista. MindsEye era anunciado como o “AAA dentro do metaverso” que acompanharia a plataforma Everywhere. A ideia de lançar, ao mesmo tempo, um hub social construído na Unreal Engine 5 e um jogo episódico de orçamento hollywoodiano parecia o golpe de ousadia que faltava a um mercado lotado de sequências. Agora, os próprios roteiros do capítulo piloto estão parados na nuvem, enquanto talentos seniores correm para atualizar portfólios.
Ambição em duas frentes drenou caixa e esvaziou moral
Desde 2017, a Build a Rocket Boy anunciou ter captado mais de US$ 120 milhões com fundos de Cingapura, Emirados Árabes e da Epic Games. Mas, ao fatiar os recursos entre duas equipes distintas — uma focada em ferramentas de criação para usuários, outra em um blockbuster com captura de movimento digna de série de TV — o estúdio multiplicou custos fixos de licenciamento, servidores e QA simultâneo em três continentes.
Em janeiro, quando a primeira rodada de demissões atingiu cerca de 10% do quadro, fontes internas alertaram que o burn rate já superava o teto previsto para todo o primeiro semestre. O conselho sugeriu pausar Everywhere e priorizar MindsEye, mas a divisão era estrutural: certas peças da narrativa interagem com sistemas que só existem dentro do hub social. Resultado: nenhuma das frentes pôde avançar sozinha, e o dinheiro evaporou numa maratona onde cada sprint obrigava a reescrever o outro projeto.
Ao mesmo tempo, o mercado de capitais virou a cara para apostas “metaverso” pós-Meta. Sem publisher tradicional para bancar marketing e consoles de desenvolvimento, a Build a Rocket Boy dependia de novas rodadas que nunca vieram. O colapso estourou justo quando demos internas mostravam potencial técnico comparável a Marvel’s Wolverine, que a Sony pretende vender em seis milhões de unidades, conforme revelou este portal em reportagem recente.
Efeito dominó expõe fragilidade de AAA independentes
Os cortes na Build a Rocket Boy se somam ao fechamento de Volition (de Saints Row) e à redução drástica na Relic (Company of Heroes). O ponto em comum: todos tentaram sustentar equipes de mais de 300 pessoas sem o ecossistema bruto das grandes plataformas. Com despesas de engine, licenças de capture stage e salários internacionais indexados em dólar, basta um atraso de seis meses para o orçamento explodir.
Consultorias ouvidas pela reportagem explicam que, sem contratos de exclusividade ou adiantamentos de lojas digitais, estúdios médios ficam expostos a flutuações cambiais e juros altos. É o oposto da estratégia de plataformas como a Sony, que trabalha com prazos rígidos de 18 meses para entrada e saída de títulos no PS Plus, como discutimos no artigo “Saída de 8 jogos do PS Plus em outubro expõe janela de 18 meses”. Essa regularidade garante fluxo de caixa aos parceiros — luxo que a Build a Rocket Boy nunca teve.
Próximos passos: venda de IP ou encerramento
Na ausência de novo investidor, duas saídas estão na mesa. A primeira é alienar a propriedade intelectual de MindsEye para um publisher disposto a herdar a equipe-núcleo, salvando parte dos empregos. A segunda, considerada mais provável pelos próprios funcionários desligados, é um encerramento formal nos próximos 60 dias, com a marca Everywhere sendo oferecida como “tecnologia white-label” para experiências de eventos.
Leslie Benzies, que há meses se mantém recluso em Edimburgo, não se pronunciou até o fechamento desta edição. Internamente, comenta-se que o criador de alguns dos GTA mais lucrativos da história pode voltar à Rockstar em consultoria, hipótese que ganharia força caso a empresa recupere parte do código-fonte que ele ajudou a desenvolver. Para os quase duzentos profissionais que ainda restam no Slack da Build a Rocket Boy, porém, a prioridade é mais básica: garantir rescisões pagas em dia e entender se o sonho de revolucionar o metaverso acabou antes mesmo do primeiro capítulo chegar às telas.
Seja qual for o desfecho, MindsEye deixa uma advertência clara: ambição técnica sem modelo de financiamento sólido pode transformar até o currículo mais celebrável — e todo o seu time — em estatística de LinkedIn.

