O agente Noah Macon mal teve tempo de desfazer o disfarce quando, no episódio 7 de “Lanterns”, foi obliterado por um pulso construtivo criado pelo próprio John Stewart. Com isso, o DCU perdeu em minutos o que prometia ser seu grande vilão inaugural — um Manhunter infiltrado havia décadas na Terra.
A eliminação relâmpago não foi acidente de roteiro. Nos bastidores, segundo interlocutores ligados à sala de roteiristas, James Gunn aprovou a cena para sinalizar duas ideias-chave: abrir espaço imediato para uma ameaça maior e deixar claro que, nesta fase do reboot, nenhum antagonista é garantia de longevidade.
Morte-relâmpago muda o eixo dramático de “Lanterns” e do DCU
Desde o piloto, a presença de Macon sustentava o fio investigativo da série. Seu diálogo criptografado com centrais Manhunter e o easter egg de mapas veganos — apontado no artigo “A pequena mentira de John Stewart em ‘Lanterns’” — sugeriam arco longo de espionagem. Ao liquidar o personagem, Gunn rompe o esquema “vilão da temporada” e empurra Hal Jordan e Stewart a confrontarem a rede inteira dos exterminadores cósmicos.
O efeito cascata já apareceu no roteiro: a Força Tarefa Alfa, anunciada como a sexta equipe oficial do DCU, foi convocada dois episódios antes do planejado para investigar quem ativou o pulso. Na prática, “Lanterns” trocou o suspense policial por uma trama geopolítica galáctica — movimento que alimenta a coesão do calendário de longas de Gunn, a começar por “Superman: Man of Tomorrow”.
Estratégia de Gunn: girar vilões para valorizar a próxima crise cósmica
A morte de Noah confirma um padrão: Gunn vem descartando peças individuais para construir blocos de antagonistas, tática que ele mesmo defendeu ao apresentar a Liga da Justiça Animal e, agora, o pelotão dos Lanternas. A lógica é simples: ao girar vilões, o público não decorre previsões fáceis e as bilheterias se mantêm em alerta.
Foi assim com o boato de um funeral de Hal Jordan — que nunca ocorreu, como o próprio diretor esclareceu na matéria “A ‘morte’ de Hal Jordan nunca existiu”. A isca funcionou: enquanto fãs discutiam a suposta baixa do herói, a produção ocultava a verdadeira carta, o sacrifício do Manhunter.
Em conversas internas, executivos da Max defendem que a jogada pavimenta uma “Crise Silenciosa” para 2028, evento coroado por múltiplos clãs vilanescos em vez de um tirano único. Assim, mesmo um nome gigante como Lobo — criticado por veteranos da editora — pode ser usado e jogado fora sem travar o fluxo de histórias.
O que muda para as próximas fases do universo
Com o Manhunter fora de cena, “Lanterns” deve acelerar a chegada de Ch’p e B’dg, personagens que trazem leveza antes da escalada bélica. Já o cinema herda duas vantagens: não precisa recapitular a ameaça Manhunter em longas futuros e ganha pista para justificar a coalizão heróica que sucederá “Man of Tomorrow”.
Nos corredores da DC Studios, o consenso é que essa elasticidade — matar peças grandes cedo para valorizar o tabuleiro — será aplicada de novo em “Clayface”, cujo filme de 90 minutos, segundo a pré-produção, termina sem vilão sobrevivente. Se a cartilha se mantiver, o público pode se preparar: no DCU de James Gunn, todo antagonista nasce com prazo de validade e a próxima crise já começou antes de sabermos quem, de fato, a lidera.

