O próximo jogo da Remedy, Control Resonant, não terá uma única faixa de tinta amarela apontando a direção — marca registrada do primeiro título e atalho visual típico dos blockbusters. Dentro do estúdio, a ordem foi clara: “se o jogador não sentir vontade de andar sem mapa, falhamos no design”.
A decisão, confirmada por fontes que participam dos playtests, contradiz a cartilha de legibilidade que domina os AAA há uma década e já provoca reações: da empolgação dos veteranos que clamam por mais liberdade ao alerta de consultores de acessibilidade sobre possível exclusão de parte do público.
Remedy declara guerra ao “caminho de gato” que adestra olhos
O amarelo dos canteiros, caixas e corrimões virou piada interna na indústria — chama-se “caminho de gato” porque o jogador apenas segue o ponto mais chamativo da tela, sem pensar. Control Resonant abandona esse GPS cromático e esconde pistas em arquitetura, iluminação diegética e design de som. A aposta dialoga com a virada recente da Insomniac, que tirou o piloto automático de Marvel’s Wolverine após críticas de engessamento.
Segundo designers que passaram pela pré-produção, a Remedy testou camadas sutis de guia: rachaduras que emitem zumbido de frequência baixa, reflexos que mudam de cor conforme a posição do personagem e até arquivos de áudio que “chamam” o usuário pelo fone 3D. Tudo para evitar a placa gritante “vá por aqui” sem transformar o cenário em labirinto frustrante.
Explorar dá status, mas o bolso de quem não enxerga a pista?
O corte da tinta traz um dilema. Jogos como The Last of Us colecionam prêmios justamente por conciliar narrativa densa e recursos para daltônicos, baixa visão e déficit de atenção. Em Resonant, parte desses marcadores visuais sairá de cena. Consultores ouvidos afirmam que a Remedy pretende oferecer “modo eco” — uma sobreposição opcional de vibração no dual-sense e filtros sonoros que imitam radar. Resta saber se uma solução 100% opcional será ativada por quem mais precisa ou ficará invisível no menu.
A discussão ecoa o drama de Marathon, que perdeu boa parte dos testes internos ao focar no jogador hardcore. Se Control Resonant repetir o tropeço, pode comprometer não só vendas, mas o fundo que financia os dois projetos secretos da Remedy, informam executivos próximos ao conselho.
A nova corrida da curiosidade vale mais que o risco comercial
Internamente, a Remedy calcula que a aura de mistério — e os vídeos de “segredos que você deixou passar” no TikTok — tem potencial de marketing maior do que as setas amarelas jamais ofereceram. É a mesma lógica dos códigos raros que inflacionam a economia paralela de Roblox em títulos como Anime Revengers: quem descobre primeiro vira autoridade instantânea.
No curto prazo, a mudança pressiona influenciadores e sites de guia a produzir conteúdo mais analítico, justamente num momento em que a Sony questiona a utilidade das grandes feiras, como mostrou o recuo na CES 2027. Para a Remedy, abrir mão da tinta amarela não é só escolha estética; é um recado de que o valor de um jogo pode estar menos na instrução explícita e mais na dúvida que faz o jogador parar, olhar — e, claro, comentar.
Se dará certo, só saberemos quando o controle estiver nas mãos do público. Por enquanto, o estúdio finlandês recoloca uma pergunta incômoda à prateleira AAA: até onde a segurança de não se perder vale sacrificar a sensação de ter realmente encontrado algo?

