Um anúncio que durou menos de dois minutos no painel da Khara na MegaHobby Expo foi suficiente para disparar a pré-venda mais rápida do evento: a comandante Misato Katsuragi, tal qual apareceu na TV em 1995, voltará em uma figura de escala 1/4 prevista para 2027. É a primeira vez em vinte anos que a licença oficial abandona o uniforme reprojetado para os filmes Rebuild e recoloca o casaco púrpura alongado, o cabelo mais volumoso e o crucifixo fino — traços limados em 2007.
O resgate não é só fetiche de colecionador. Ele expõe a guinada mercadológica da Khara, que passa a vender Evangelion numa chave dupla: futuro para o público novo, memória afetiva ultrafiel para quem já tem poder de compra premium. O detalhe que escaparia num release comum é o timing: a peça chegará às lojas no mesmo ano em que vence o principal acordo de distribuição mundial dos filmes, facilitando uma renegociação embalada pelo apelo retro.
Khara aposta no bolso dos quarentões para engordar caixa sem novo anime
Quem tinha quinze anos quando o anime original estreou já passou dos quarenta — e acumulou renda para pagar os 42 000 ienes (cerca de R$1.350) pedidos pela fabricante Amakuni. Segundo executivos presentes no painel, 70% das encomendas iniciais vieram de compradores identificados como “retornantes”, fãs que não consumiam produtos novos da marca havia pelo menos cinco anos.
O cálculo não ocorre no vácuo: itens premium de franquias veteranas explodiram após movimentos como o set oficial de Dragon Ball na Lego e o crossover de Chainsaw Man com a Crocs. A diferença é que Evangelion prefere vincular o preço elevado a uma promessa de autenticidade do período da TV, enquanto concorrentes apostam em releituras ou paródias pop.
Visual de 1995 reabre disputa pelo “cânone verdadeiro” da série
Ao ressuscitar o design pré-Rebuild, a Khara reaviva um debate interno ao fandom: qual Evangelion vale mais, o da TV ou o renovado por Hideaki Anno nos cinemas? A empresa mantém silêncio sobre nova animação, mas a escolha da roupa de Misato — idêntica até na mancha preta da meia-calça direita, um erro de tinta que virou lenda entre animadores — sinaliza que o estúdio topa esfumar a hierarquia oficial se isso mover faturamento.
Distribuidores ouvidos em Tóquio identificam outra leitura: a peça testaria o mercado para um relançamento 4K do anime de 26 episódios, inédito em mídia física no Japão desde 2015. Se a teoria vingar, a manobra corrige o hiato em que Evangelion se manteve sem novo produto-âncora desde que o mangá derivado terminou em 2013, enquanto rivais como Dragon Ball reajustaram estratégia editorial quase todo ano.
O que vem na caixa e por que isso importa
- Casaco de tecido real, removível, algo inédito em figuras fixas de Evangelion.
- Base iluminada simulando a luz do elevador na introspectiva cena do episódio 23.
- Certificado numerado que menciona “versão TV” — detalhe jurídico que diferencia a peça de licenças Rebuild.
Embora pareça mero agrado nostálgico, cada escolha reforça a distinção legal entre os dois “universos” da marca, permitindo pacotes de licenciamento paralelos. No fim, a volta da Misato clássica é menos uma carta de amor aos fãs e mais um teste de mercado: se os quarentões abrirem a carteira agora, nada impede que Shinji, Asuka e até o anjo Sachiel ganhem edições semelhantes no ciclo 2028-2030. Quem achou que Evangelion já tinha dito tudo em 1995 descobriu que o formato colecionável ainda guarda espaço para novos — e lucrativos — finais.

