Junji Ito resolveu trocar o traço preto-e-branco que o consagrou por páginas inteiras em cores escuras, capa dura e tamanho de álbum infantil. O mestre do terror japonês assina o volume inaugural da série Horror Picture Books, aposta da Viz Media para ocupar, já neste Halloween, o espaço das mesas de “presentes de impulso” em livrarias e megastores dos Estados Unidos.
A manobra soa pequena — apenas 32 páginas por lançamento —, mas mexe em três frentes ao mesmo tempo: expande a editora além do público otaku, recoloca a estética do mangá no corredor de literatura ilustrada para jovens adultos e testa um formato rentável fora da guerra de assinaturas do streaming. E o detalhe que pouca gente notou: Ito recebe carta branca para pensar a obra como um “álbum único”, sem obrigação de virar série contínua, privilégio raríssimo na indústria.
Formato enxuto, margem larga: onde a Viz quer ganhar
Os Horror Picture Books chegam em tiragem inicial de 50 mil exemplares, segundo informou a própria editora a livrarias especializadas. Pelo ticket de 17,99 dólares, cada volume encapsula uma história completa, em impressão premium, pensando no consumidor que leva um “presente temático” junto com o doce de abóbora ou a vela aromática de temporada. É a fatia de mercado que títulos como Scary Stories to Tell in the Dark ainda dominam, mas que o mangá nunca havia atacado de frente nos EUA.
Nesse jogo, o custo-benefício pesa: 32 páginas coloridas em capa dura saem mais baratas de produzir do que um tankōbon tradicional em preto-e-branco, graças ao papel fosco de gramatura menor e ao frete otimizado. Como o projeto não precisa de periodicidade mensal, a Viz dilui risco de encalhe e ancora a divulgação num único pico anual, sempre em outubro. Executivos da cadeia Barnes & Noble confirmaram que o título ficará exposto no setor de gifts, não no de comics — sinal de que o alvo é o bolso de quem não leria um mangá inteiro, mas topa gastar por um “objeto de atmosfera”.
Junji Ito assume a vitrine e puxa outros autores de nicho
O primeiro livro, ainda sem título em português, coloca Ito na pele de narrador quase infantil: um menino encontra uma espiral viva dentro de um carrossel abandonado. A premissa retoma o fascínio do autor por formas hipnóticas, mas em tom menos gráfico que obras como Uzumaki. O objetivo declarado é “assustar sem repelir”, abrir caminho para a adoção escolar em clubes de leitura de Halloween, ponto que as livrarias americanas promovem com força.
Na sequência da linha vêm nomes que o leitor de mangá cult conhece, mas a massa não: Kanako Inuki, lida no Japão como “rainha do terror shōjo”, e Ryo Hanada, de Devils’ Line. A curadoria junta estilos diferentes para evitar o rótulo de coletânea e garantir vitrine contínua. Se vender bem, cada autor volta em 2025 com novo álbum; se vender pouco, muda-se a escala sem descartar o formato. É teste de mercado puro.
Por que agora: a temporada sombria ganhou novos competidores
O timing não é acidente. A temporada 2023 de Halloween foi a maior em 14 anos em faturamento editorial nos EUA, segundo a associação de editores locais, e já se projeta crescimento extra de 8% para 2024. Ao mesmo tempo, o streaming barateia produções de terror — basta lembrar como a Netflix terceirizou aos estúdios japoneses seu próximo épico sombrio, tema que exploramos em reportagem sobre a aposta em Grimm. Sobrou para o impresso disputar a aura de presente colecionável, e a Viz entendeu que, nesse nicho, a vitrine pesa mais do que a lombada na estante de mangá.
No Japão, Ito já havia testado contos de terror ilustrados para crianças no selo Poplar, mas nunca com lançamento mundial simultâneo. A leitura dos executivos é que o nome do autor cria legitimidade instantânea e, ao mesmo tempo, protege a iniciativa: se o álbum falhar, a crítica culpará “o formato”, não a marca Viz. Um movimento corajoso que, se der certo, pode abrir caminho para outros gêneros experimentarem o mesmo modelo de “livro-imagem” sazonal — imagine um shojo natalino ou um cyberpunk de verão para surfar no retorno de AD Police.
Para o leitor brasileiro, resta a esperança de ver a ideia importada. Editoras locais já sondam o projeto, apuramos, mas a Viz negocia apenas franquias globais de Halloween a partir de 2025. Até lá, o jeito é encomendar a primeira espiral de Ito lá fora — e torcer para que o medo caiba na mala de mão.

