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O Batman que não vimos: como o roteiro de Affleck e Deathstroke quase transformou o herói num John Wick gótico

Bruce Wayne passaria a primeira cena do filme atolado em um Batmóvel destroçado, consciente de que alguém memorizara cada ponto cego de sua armadura. Esse “alguém” era Slade Wilson, o Deathstroke de Joe Manganiello, e o jogo de gato e rato catapultaria Gotham a um clima de thriller perto de John Wick: poucas palavras, golpes letais e uma caça corpo a corpo dentro do Asilo Arkham. O projeto foi enterrado pela Warner em 2018, mas o ator revelou agora o detalhamento do roteiro – e ele expõe o tamanho da oportunidade perdida num momento em que a DC ainda busca um tom coeso.

A revelação é mais que curiosidade de bastidor: ela ajuda a entender por que James Gunn, ao assumir o DC Studios, sinalizou que o futuro Batman precisará “conversar com outros gêneros”, como já antecipamos ao analisar a pista de Clayface em dobro. A ideia de Affleck era justamente romper o molde de super-herói gigante contra feixe de luz no céu — deslocando a narrativa para dentro de corredores claustrofóbicos, onde habilidades táticas importam mais que CGI.

Thriller de vingança e infiltração: o roteiro que reposicionava Gotham

Segundo Manganiello, Deathstroke começaria o filme eliminando aliados de Bruce um a um – Alfred seria envenenado, Lucius Fox sequestrado e o Batcomputador hackeado para exibir a mensagem “Eye for an eye”. O vilão queria devolver ao herói cada lesão que sofrera na época em que servia como mercenário a serviço da CIA de Amanda Waller. Nada de conquista mundial: era uma vingança cirúrgica contra o homem por trás da máscara.

A perseguição culminaria numa invasão a Arkham, onde Deathstroke libertaria criminosos só para desgastar física e psicologicamente o Batman. Affleck planejava filmar a sequência como um one-take de 20 minutos, usando steady-cam e pouca luz, para que o público sentisse as pancadas no mesmo ritmo do herói — um recurso próximo ao de “Oldboy” e que antecederia a estética adotada por “The Batman” de Matt Reeves.

O roteiro ainda reservava um detalhe que agora ganha peso: Bruce terminaria o filme com o joelho estourado, forçando-o a usar um exoesqueleto similar ao da HQ “Knightfall”. O gancho criaria espaço para que um Robin ou até mesmo Batgirl assumisse momentaneamente o combate em uma eventual sequência, algo que a DC só voltou a testar com a série “Titãs”.

Por que a Warner freou o projeto — e o que mudou depois disso

Quando o roteiro ficou pronto, “Liga da Justiça” ainda não havia estreado. Dentro da Warner, havia medo de que um Batman violento e autodirigido afastasse o público familiar, especialmente após a recepção dividida de “Batman v Superman”. Além disso, a gerência temia entregar a Affleck (também diretor roteirista) controle total de um ativo que valia bilhões em licenciamento.

O contexto financeiro pesou: 2017 fechou com gastos altos em refilmagens de “Liga” e o estúdio precisou priorizar projetos mais leves, como “Aquaman”. O filme solo do Cavaleiro das Trevas, projetado para 90 milhões com pegada R-rated, não batia na planilha de brinquedos. A conta não fechava para o mercado chinês, sensível a violência explícita.

Internamente, executivos acreditavam que era arriscado expandir o universo de Zack Snyder enquanto o resultado de “Liga” era incerto. Assim, mesmo com a aprovação preliminar de figurino — o traje tático recebeu elogios e serviria de base para o game “Arkham Knight” —, o filme foi removido do cronograma. Affleck deixou o personagem, o DC U entrou em balanço e abriu-se espaço para o reboot noir de Reeves.

O legado fantasma que ainda pesa sobre o novo DC Studios

Curiosamente, elementos do roteiro cancelado migraram para outros cantos. O visual de Deathstroke, por exemplo, inspirou o skin “Knightmare” usado na cena adicional do Snyder Cut. Já a ideia de empilhar vilões no Arkham ressurgiu em “The Batman” e no seriado derivado “Arkham Asylum” anunciado por Reeves.

Mais relevante: a Warner percebeu que existe público para um Batman brutal, desde que enquadrado num esquema autoral. Isso explica por que James Gunn planeja coexistir com múltiplas versões do herói, um “teste de multiverso” que já discutimos ao analisar o movimento em torno de Clayface. O fantasma do projeto de Affleck serve como alerta: quando a DC tenta padronizar demais, perde o timing; quando deixa um olhar singular florescer, acerta em cheio como em “Coringa”.

A revelação de Manganiello, portanto, não é apenas anedota de um filme que morreu. Ela ilumina a encruzilhada em que o DC Studios se encontra hoje: ou abraça a ousadia de gênero, ou arrisca repetir o ciclo de projetos engavetados que transformam o Homem-Morcego na lenda de oportunidades perdidas mais cara de Hollywood.

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