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Clayface em dobro? Como a pista de James Gunn expõe o primeiro “teste de multiverso” do novo DC Studios

Não foi preciso mais do que três linhas num post de James Gunn para incendiar a comunidade geek: “Ainda há espaço para diferentes Clayfaces”. A frase, disparada enquanto o filme solo do vilão segue nos primeiros testes de audiência, confirmou o que boa parte da indústria cochichava — a DC quer manter duas encarnações simultâneas da massa de barro assassina, uma no universo principal que estreia com “Superman” (2025) e outra no Batman sombrio de Matt Reeves.

Na prática, o diretor do novo DC Studios vocalizou a cartada que, até agora, só existia nas apresentações fechadas a investidores: usar personagens de segundo escalão como laboratório para sua política de Elseworlds, obras isoladas que não precisam pedir benção à continuidade oficial. Se der certo com Clayface, cai a principal crítica ao estúdio pós-Snyder — a confusão de linhas narrativas — e abre-se a porteira para duplicar coringas futuros sem travar o calendário de lançamentos.

Gunn autoriza duas versões simultâneas do vilão

Desde 2022, o diretor Mike Flanagan tenta emplacar um roteiro de horror psicológico sobre Basil Karlo, o Clayface original dos quadrinhos. O projeto ganhou sinal verde discreto este ano, mas carrega a etiqueta “independente”, termo-cortina que a DC vinha usando para filmes sem conexão oficial. A dúvida era se, com o DCU recomeçando do zero, o estúdio aceitaria outro Clayface rodando à parte. A resposta veio no tal post de Gunn: sim, e ele terá companhia.

Conforme apuramos com fontes próximas à sala de roteiristas, a versão “oficial” — possivelmente inspirada em Matt Hagen, o ator tragado por um composto químico — aparece já no segundo ato de “The Brave and the Bold”, futuro longa do Batman paterno que Gunn produz. O vilão funcionaria como espelho da crise de identidade de Damian Wayne, novo Robin e filho biológico do Morcego. No Reevesverse, o foco é o horror corpóreo, com Clayface mais próximo de um monstro de Cronenberg do que de um gangster carnavalesco.

Por que isso importa além da curiosidade de fã

A DC testa, pela primeira vez de forma explícita, a ideia de personagens repetidos em linhas de tempo paralelas enquanto o público ainda está aprendendo a diferenciar siglas como DCEU, DCU e Elseworlds. Se a bilheteria abraçar as duas encarnações de Clayface, Gunn ganha munição para desengavetar projetos hibernando desde a era pré-fusão Warner-Discovery, inclusive a sequência de “Coringa” e eventuais retornos do próprio Bat-Pattinson sem comprometer seu arco principal.

O movimento também empurra a DC para a disputa de narrativa com a rival Marvel, que ensaia algo semelhante após VisionQuest e as piadas de Josh Brolin sobre o “fantasma de Thanos” ainda assombrar o MCU. A diferença: enquanto a casa do Homem-Aranha tem usado variantes para tapar furos de roteiro, a DC pretende tratar cada universo como autoral, com tom e público-alvo distintos — terror corporal no Reevesverse e aventura pulp no DCU.

O detalhe que passa batido: custos e direitos

Manter dois Clayfaces implica negociar duas cadeias de licenciamentos. O departamento de produtos tem de criar linhas que não se canibalizem nas prateleiras: bonecos de argila mutante para maiores de 16 anos de um lado, figuras articuladas “kid friendly” do outro. Internamente, há receio de repetir o impasse que travou o vilão Lord Doom em “Avengers: Doomsday”, cortado após o merchandising não se entender com o roteiro.

Outro ponto sensível são os direitos de imagem dos dublês digitais. A equipe de Reeves usa captura facial ultra-realista, exigindo contratos separados para cada fase da degeneração de Karlo. No DCU, a Wētā prefere modelar o corpo inteiro em CGI, evitando penduricalhos jurídicos. Se ambos os filmes chegarem ao streaming num intervalo curto, a DC terá de coordenar regionalmente quem detém qual Clayface em cada território, um quebra-cabeça que lembra a confusão dos 007 paralelos exposta em 1983 e revisitada nesta análise.

Gunn sabe que não existe segundo piloto: o sucesso ou fracasso dessa duplicidade definirá até onde o estúdio pode esticar o conceito de multiverso sem afogar o público. Se o vilão de barro segurar o rojão, outras figuras “molde flexível” — Hera Venenosa, Sr. Frio, até um Espantalho classificado R — já estão na fila para ganhar versões em dobro. Para o leitor que costumeiramente vê a DC tropeçar na própria ambição, Clayface pode parecer um detalhe. Mas, dentro dos corredores da Warner, ele virou o termômetro que vai dizer se a lama endurece ou se desmancha antes de tocar o solo.

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