Foram precisos apenas 13 dias para que um modelo de “Meu Amigo Totoro”, publicado na plataforma LEGO Ideas, atingisse a marca de 10 mil apoios e ganhasse o direito de ser avaliado oficialmente pela empresa dinamarquesa. O número é a senha que coloca qualquer projeto de fã na mesa do comitê em Billund — e, se aprovado, transformará Totoro no primeiro set licenciado do Studio Ghibli na história da LEGO.
Mais do que um feito de internet, o avanço ilustra uma mudança de humor dentro do estúdio de Hayao Miyazaki, historicamente avesso a ceder personagens para produtos em massa. Depois de testar novos formatos com o parque temático em Aichi e acordos seletivos de streaming, o Ghibli ensaia agora seu passo mais ousado: entrar no mercado high-end de blocos colecionáveis, hoje dominado por adultos com tíquete médio em ascensão.
Totoro crava 10 mil apoios e obriga a LEGO a discutir o primeiro set Ghibli
O projeto, concebido pelo designer japonês moonlight, reproduz a cena do ponto de ônibus — Totoro, Satsuki, o guarda-chuva e o Catbus reduzido a um diorama de 850 peças. Em menos de duas semanas, a campanha superou a barreira de 10 mil votos, gatilho que põe a proposta na rodada de revisões que será anunciada no segundo semestre.
Não é a primeira tentativa. Outras versões chegaram perto do corte em 2017 e 2021, mas naufragaram antes de virar produto. A diferença agora é o timing: a LEGO atravessa um ciclo de licenças voltadas a públicos de nicho, enquanto o Ghibli passa a enxergar valor em itens premium que sustentem o parque e a expansão internacional do catálogo. Um aceno duplo que, segundo analistas de varejo, “fecha a equação de risco” para ambas as partes.
Resistência de Miyazaki a licenciar bonecos perde força na nova fase de expansão
Hayao Miyazaki já declarou em entrevistas que “comercializar tudo dilui a alma dos filmes”. O mantra moldou a política interna por três décadas, limitando a linha oficial a pelúcias e papercrafts vendidos no próprio museu Ghibli. A virada começou em 2020, quando o estúdio, pressionado pelo câmbio desfavorável e pelo hiato criativo, abriu espaço para acordos de distribuição global.
Do museu ao parque temático, um caminho pavimentado por nostalgia paga
A estreia do Ghibli Park em Nagakute reorganizou o balanço financeiro da empresa: o ingresso custa o dobro do museu de Mitaka, e a loja oficial vende edições limitadas que somem no primeiro dia. Ao internalizar que o fã adulto aceita pagar caro por experiências imersivas, os executivos passaram a testar produtos com valor agregado alto, caso do set LEGO que, se sair, deve custar acima de R$ 600—faixa semelhante ao kit “três-em-um” da Bandai que ressuscita Gundam X e ao Monsterbot premium da Hasbro.
Colecionador de 30+ anos vira bússola e aproxima Ghibli do bloco a bloco
Para a LEGO, o apelo é cristalino: Totoro ocupa o mesmo território afetivo que “Star Wars” e “Harry Potter”, mas ainda inexplorado na prateleira de 18+. Já para o Ghibli, a chance de ter um set oficial significa diversificar receita sem depender exclusivamente do licenciamento de streaming. Se aprovado, o lançamento coloca o estúdio na conversa global sobre cultura pop colecionável — debate que hoje gira em torno de franquias como Transformers G1 e animes em alta como “Solo Leveling”.
O veredito da LEGO sai no fim do ano. Caso o projeto avance, Totoro não só abrirá caminho para versões de “A Viagem de Chihiro” e “Princesa Mononoke” como também consolidará um novo capítulo na relação entre arte autoral e mercado — algo que nem o próprio Miyazaki, ao criar o silencioso guardião da floresta em 1988, imaginaria desmontado em pecinhas numeradas.

