Um slide perdido na apresentação a investidores da CJ ENM, em Seul, foi suficiente para acender rumores: “Project A” — codinome provisório do primeiro anime coreano que junta artes marciais explosivas à magia sombria — recebeu sinal verde para 24 episódios e já tem escritor de Jujutsu Kaisen na bancada de roteiristas. O detalhe passou despercebido nos fóruns, mas sacudiu distribuidores no Asia TV Forum, em Cingapura, no fim de maio.
Se confirmado, o título, baseado em um webtoon que ainda não ganhou versão impressa, coloca a Coreia do Sul na briga direta com o mainstream shonen japonês. A aposta: replicar o impacto global de Solo Leveling, mas com DNA híbrido que lembra Dragon Ball no ritmo de pancadaria e Jujutsu Kaisen na hierarquia secreta de maldições — uma combinação que, na teoria, conversa com duas gerações diferentes de fãs.
Modelo de produção rompe padrão “faça como no mangá” e mira campeonato shonen
O projeto tranca a sala em três pontos que incomodam Tóquio. Primeiro, o orçamento: 6,5 milhões de dólares para a temporada inicial, quase o dobro da média de uma série japonesa de mesmo porte. Segundo, a divisão de tarefas: a animação bruta fica em um estúdio de Seongnam, enquanto a supervisão de ação foi encomendada a veteranos que trabalharam em Dragon Ball Super — movimento que dribla a dependência histórica de freelancers japoneses.
Mas é o terceiro item que chama atenção: a narrativa será escrita ao mesmo tempo em que o webtoon recebe capítulos extras, descartando a cartilha “adapte quando acabar”. O roteirista-chefe, que assinou dois arcos de Jujutsu Kaisen, negocia liberdade para acelerar power-ups e matar personagens já nos primeiros sete episódios, evitando o chamado engasgo de exposição. O cronograma arriscado pode entregar reviravoltas antes que a internet traduza o material original, minando spoilers e alimentando a urgência semanal que fez Attack on Titan explodir.
Para fechar a equação, a CJ ENM testa uma ferramenta própria de previsibilidade de cena, capaz de mapear quais quadros geram mais clipes virais no TikTok. O algoritmo foi calibrado com batalhas de Dragon Ball Z e lutas de domínio de Jujutsu Kaisen, revelam executivos ouvidos sob condição de anonimato.
Bastidores indicam guerra fria de licenciamento; Crunchyroll observa em silêncio
Apesar do burburinho, nenhuma plataforma anunciou aquisição. Dentro da indústria, a expectativa é que a Crunchyroll desembolse alto para manter a dianteira em conteúdo coreano depois de ter adotado tática semelhante com Hunter x Hunter, como mostramos na análise sobre o licenciamento silencioso de Togashi. A Netflix, que perdeu Solo Leveling, corre por fora, mas enfrenta o dilema de ter que exibir a série em simulcast, formato que costuma desordenar o marketing do streaming.
Outro ponto sensível é o intercâmbio de talento japonês. A Toei Animation, histórica casa de Dragon Ball, foi sondada para consultoria de key frames, mas declinou após verificar cláusulas que limitavam o crédito em tela. Fontes dentro da Toei avaliam que a Coreia “só” precisa acertar a sensação de impacto — aquele microsegundo entre o soco e a reação — para convencer o nicho que hoje ainda chama qualquer anime coreano de “engenharia reversa”.
Enredo funde ki e maldição para hackear o algoritmo dos clipes
No webtoon original, o protagonista usa energia vital (ki) para expandir golpes em velocidade supersônica, mas cada explosão abre fendas espirituais que atraem demônios vingativos, uma ideia que ecoa o sistema de maldições de Jujutsu Kaisen. A mecânica dá gatilhos visuais perfeitos para os “freeze frames” que viralizam, segundo a equipe de marketing. A missão do roteiro é escalonar o poder sem inflar o número de personagens: apenas quatro antagonistas devem carregar o clímax da primeira temporada — solução que concentra orçamento em batalhas e diminui risco de filler.
Se o cronograma se mantiver, o piloto estreia no primeiro trimestre de 2027, um mês antes da janela que tradicionalmente recebe novas temporadas de hits japoneses. Pode parecer detalhe, mas a jogada é calculada: ocupar uma lacuna de hype e impedir que o público migre para as renovações de janeiro. A Coreia quer provar que não basta imitar o shonen; é possível reescrever as regras de lançamento e distribuição. O que nasceu como “Project A” pode não ter nome oficial ainda — mas já tem a atenção de quem decide onde o próximo grande anime vai nascer.
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