Quando a japonesa TV Tokyo divulgou seu balanço de licenciamento nesta semana, um número saltou aos olhos: pela primeira vez desde a estreia de Boruto, o spin-off superou o anime original de Naruto em receita internacional, R$ 214 milhões contra R$ 207 milhões (valores convertidos). O resultado encerra uma disputa de oito anos entre pai e filho que dividia fãs e anunciantes.
Além de virar a chave simbólica, a virada de Boruto tem efeito prático na fila de investimentos. O estúdio Pierrot, que já congelou a série em março de 2023 para “replanejamento”, ganhou argumento de caixa para acelerar a nova fase Two Blue Vortex e renegociar fatias maiores com plataformas de streaming.
Ranking oficial eleva Boruto e rebaixa o clássico pela 1ª vez
O levantamento, compilado a partir das vendas externas de todo o catálogo animado da emissora, aponta Boruto em terceiro lugar geral, atrás apenas de Bleach: Thousand-Year Blood War e do onipresente Pokémon. Naruto, que liderou de 2015 a 2022, caiu para a quarta posição — um degrau que parece pequeno, mas quebra a sequência de supremacia ininterrupta.
Em notas enviadas a investidores, a TV Tokyo credita a guinada a três motores: a explosão de assinantes na América Latina e no Sudeste Asiático, acordos de licenciamento móvel — especialmente o game Boruto Ninja Tribes — e um volume maior de colecionáveis premium, seguindo a rota de Evangelion, que ressuscitou o visual raiz da Unit-01 para sacudir fãs de longa data.
Como o herdeiro venceu: janela curta, TikTok e apelo de geração
O primeiro golpe veio do calendário. Enquanto Naruto leva anos sem episódios inéditos, Boruto aterrissava simultaneamente em mais de 50 territórios, abastecendo dublagens e cortes semanais no TikTok. O “delay zero” deu à saga do filho de Uzumaki um empurrão que o clássico, limitado a reprises, não tem como reproduzir.
Outro ponto é a demografia. Naruteiros que hoje beiram os 30 compram nostalgia, mas consomem menos produtos colecionáveis de entrada. Já a audiência de Boruto, 13 a 21 anos, exibe taxa de recompra maior em action figures de valor médio — faixa que despenca quando a renda adulta chega, explicam analistas de mercado. É a lógica que levou a Bandai a triplicar a rede Gundam Base nos EUA, correndo contra o relógio para ativar uma geração mais jovem.
Nas redes, o novo protagonista também venceu em relevância orgânica. Dados da plataforma Social Blade mostram que hashtags ligadas a Boruto geraram 1,4 bilhão de visualizações no primeiro semestre, contra 950 milhões de menções a Naruto. Cada trending topic vira moeda de troca na hora de fechar contratos de skin em Fortnite ou promoções no McDonald’s asiático.
Virada força Pierrot a definir data e modelo da fase Two Blue Vortex
Com o relatório em mãos, executivos já discutem ampliar o orçamento da próxima leva de episódios. A meta inicial — 13 capítulos diretos para streaming — pode subir para 24, segundo fontes ligadas à produção. Ainda não há confirmação oficial, mas a equipe de roteiro foi instruída a tratar os quatro primeiros arcos do mangá como uma única temporada condensada.
O timing financeiro também encurta a pausa. Antes projetada para 2025, a volta de Boruto é cogitada para outubro de 2024, colada ao feriadão japonês que atrasou One Piece 1172. Se a manobra vingar, o anime pode entrar na temporada de outono como a bola da vez, deixando Naruto restrito a projetos comemorativos de 25 anos — mais um sinal de que, no balanço corporativo, o filho já não depende da sombra do pai.
O recado, portanto, é claro: nostalgia ainda paga as contas, mas quem banca o futuro são os herdeiros. E, pelo menos nas planilhas da TV Tokyo, o futuro agora atende por Boruto Uzumaki.
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