Quase trinta anos depois de Goku virar sinônimo de “nível deus”, o público ocidental decidiu que já existe alguém capaz de deixá-lo no chinelo: Saitama, o herói careca de One-Punch Man, venceu com 63% dos quase 26 mil votos registrados pelo site norte-americano ScreenRant. O resultado não só encerra — ao menos por agora — a discussão mais cansativa dos fóruns de anime, como também sinaliza que a almofada de nostalgia que protegia Dragon Ball enfim rachou.
A surpreendente vantagem de Saitama ganhou tração nas redes sociais em poucas horas, mas o que mais chama atenção é o subtexto: a mesma audiência que ainda coloca Goku como ícone pop começa a preferir narrativas que satirizam a escalada infinita de poder que ele próprio inaugurou. O fã votou na piada “um soco resolve”, mas, ao fazê-lo, mandou um recado claro para estúdios, publishers e plataformas de streaming: é hora de repensar quem dita as regras do épico shonen.
Saitama coroa uma audiência cansada de power-up infinito
O ScreenRant limitou a enquete ao período de uma semana, sem impedir múltiplos votos por IP. Mesmo assim, o placar se manteve estável desde o primeiro dia, mostrando que não se trata de “mutirão organizado” de última hora. A base de leitores do site concentra principalmente adultos entre 18 e 34 anos, justamente a faixa que cresceu vendo Goku subir de Kaio-Ken a Super Saiyajin Blue — e que agora encontra em One-Punch Man uma válvula de escape cômica para esse looping.
Pesquisas anteriores, como o ranking anual da Crunchyroll, ainda colocavam Dragon Ball Super no top-5 de engajamento global. Porém, já em 2022 o agregador MyAnimeList apontava One-Punch Man com o dobro de reviews entre novos usuários. A distância se ampliou quando a segunda temporada da série chegou à Netflix. Na prática, o voto em Saitama não mede força física; mede saturação narrativa. É o mesmo enredo de exaustão que fez One Piece atropelar Dragon Ball na própria Shonen Jump.
Quando a piada vira métrica de mercado
Do ponto de vista comercial, a troca de guarda já impacta licenciamento. Nos EUA, a loja GameStop relatou aumento de 48% na venda de action figures de One-Punch Man no último trimestre, superando pela primeira vez os bonecos de Goku no mesmo ponto físico. A Bandai, que detém ambas as linhas, confirmou em call com investidores que vai antecipar um lote premium de Saitama articulado — estratégia semelhante à que a empresa usou ao lançar o robô comemorativo de Gundam 45 anos.
Também há efeito direto em animação nova. A terceira temporada de One-Punch Man, prevista para 2024, ganhou sinal verde antes mesmo de a equipe anunciar estúdio ou diretor. Já Dragon Ball avança em ritmo protocolar: o filme Super Hero, apesar de bilheteria sólida, não reaqueceu a conversa sobre um novo arco de TV. Sem urgência, Toei prefere monetizar Goku por meio de colaborações, como o crossover de cartões “anime banking” que fez Naruto e Sasuke venderem dez mil unidades limitadas nos Estados Unidos.
Detalhe que passa despercebido: algoritmo pesa mais que canonicidade
Um dado omitido em boa parte das discussões é que o ScreenRant exibiu a enquete em páginas de matérias sobre séries live-action — do MCU a The Boys — e não apenas em textos de anime. Ou seja, muitos votos vieram de leitores casuais expostos a Saitama via memes de TikTok, não de puristas da franquia. Esse empuxo algorítmico ajuda a entender por que o herói de ONE, cuja origem é um webcomic, eclipsa o saiyajin criado por Akira Toriyama: ele nasce no feed, não na TV aberta.
Para o público japonês, o duelo continua aberto; nas pesquisas da revista V Jump, Goku ainda lidera com folga. Mas no Ocidente digital, o meme venceu o cânone — fenômeno semelhante ao que fez Castlevania, na Netflix, provar que o horror pode sobreviver onde Supernatural se domesticou. Se editoras e estúdios aprenderam a lição, veremos nos próximos lançamentos menos transformação colorida e mais ironia sobre o próprio gênero.
Até lá, o marcador de vitórias imaginárias ficará travado em 1×0 para Saitama — não porque ele quebre limites de força, mas porque quebrou, primeiro, o tédio do público.

