James Gunn leu o roteiro de Supergirl: Woman of Tomorrow, fechou a porta da sala de reuniões e avisou: “vamos desmontar isso agora, antes que seja tarde”. O projeto, que marca a estreia de Milly Alcock como a kryptoniana, passou por uma espécie de UTI criativa nas últimas semanas — e o motivo é simples: a Warner não quer repetir o tropeço do longa de 1984, lembrado até hoje como o primeiro grande fiasco de uma protagonista de HQ nos cinemas.
Ao intervir antes mesmo do início da pré-produção, o copresidente da DC Studios tenta blindar a personagem de décadas de abordagens rasas e da sombra projetada pelo recente colapso de The Flash. A ordem de Gunn é transformar Kara Zor-El em ponto de virada para o universo que ele adiou até 2032, conforme mostrou a linha do tempo oficial do DCU divulgada semanas atrás.
Gunn rasga o “molde Superman fêmea” e reinventa trauma da kryptoniana
Fontes próximas ao estúdio contam que o primeiro tratamento do roteiro tratava Kara como reflexo direto do novo Clark Kent — uma repetição que o próprio Gunn jurou aposentar em sua virada para o Superman. O executivo mandou redesenhar o arco emocional: em vez da prima sorridente que desembarca na Terra para ser heroína genérica, veremos uma sobrevivente que passou anos flutuando entre destroços de Krypton antes de chegar aqui. O tom é mais próximo do quadrinho de Tom King que inspira o filme, mas com ajustes para encaixar o horror cósmico que Gunn quer costurar por todo o DCU.
Essa mudança exige também refazer antagonistas. A versão atual coloca Lobo — já citado nos bastidores de Superman — como ameaça inicial, mas inclui pistas de Sinestro, vilão que o estúdio pretende lançar em Creature Commandos. A costura impede que Supergirl pareça um spin-off isolado e prepara terreno para o impacto intergaláctico que desembocará em Lanterns, série ainda ameaçada pela rejeição precoce a Hal Jordan.
O que muda no cronograma e no bolso da Warner
A decisão de “abrir o paciente” antes da anestesia custa caro. O estúdio liberou mais quatro semanas de salas de roteiro e adiou a entrega do design de produção. Internamente, projeta-se estreia para o último trimestre de 2027, um ano depois do previsto. A manobra, porém, preserva a lógica de lacunas estratégicas criada por Gunn para acomodar atrasos como o do novo Batman, admitido pelo executivo num raro mea-culpa.
No caixa, o atraso adiciona em torno de 12 milhões de dólares ao orçamento, mas executivos apontam que é um seguro contra a repetição de 1984, quando o filme estrelado por Helen Slater arrecadou menos da metade do custo de produção. E, sobretudo, impede que Milly Alcock chegue às telas carregando o rótulo de “Super-moça derivada”, etiqueta que afugentou parte do público feminino no passado.
Detalhe que passa batido: a posição de Supergirl no tabuleiro de Gunn
A intervenção de agora revela um compromisso mais amplo: Supergirl é a única protagonista feminina nos 13 títulos até 2032. Se esse filme falhar, todo o discurso de pluralidade do novo DCU cai. Por isso, a personagem foi promovida a “peça de transição” entre a fase dominada pelo novo Superman e o ciclo cósmico que deve culminar em grandes eventos multiescala.
Ninguém fora da Warner viu ainda a segunda versão do roteiro, mas o recado interno é que o longa “não pode ser apenas bom”; ele precisa provar que o laboratório editorial de Gunn funciona. Ao colocar a história de Kara como termômetro de risco, o estúdio dá a entender que, desta vez, não haverá espaço para remendos tardios de pós-produção — a cirurgia precisa ficar pronta antes que as câmeras liguem.
Se conseguir, Gunn não só salva Supergirl de repetir seu próprio fracasso histórico; ele ancora a credibilidade de todo o universo que promete montar, peça a peça, até a próxima década.

