James Gunn precisou de apenas 22 palavras, postadas no meio da madrugada, para conter um incêndio: “nada do que anunciamos na DC lembra She-Hulk”. A comparação, lançada por fãs após a revelação de que a série “Waller” misturará ação e humor metalinguístico, ameaçava colar no recém-nascido DCU o rótulo de fracasso que a ex-série da Marvel ainda carrega.
Ao cortar o paralelo pela raiz, o executivo-roteirista não defendeu apenas um título; protegeu o plano de 10 anos que começa com “Superman” já em pós-produção. Nos bastidores, a ordem é evitar qualquer semelhança com apostas consideradas “light” demais — uma exigência que, segundo apuramos, já alterou roteiro, elenco e até a sala de efeitos visuais da produção comandada por Viola Davis.
Comparação viral nasceu em três pontos, mas Gunn mira um só: o tom
O paralelo entre “Waller” e “She-Hulk” pegou força em fóruns por três semelhanças: a presença de uma protagonista feminina poderosa, a promessa de humor de quebra da quarta parede e o uso intenso de CGI. Para Gunn, porém, só um desses fatores assusta: o tom. Ele insiste internamente que a série não quebrará a narrativa principal nem buscará piadas autorreferenciais sobre o universo cinematográfico, prática que gerou críticas à série da Marvel.
Fontes na equipe de roteiristas contam que as piadas metalinguísticas foram riscadas após a repercussão negativa de She-Hulk, poupando apenas ironias pontuais de Amanda Waller. O receio de virar meme é tão grande que a chefia de efeitos visuais foi autorizada a segurar o cronograma para evitar o CGI “pasta de dente” que viralizou no caso da heroína esverdeada.
A linha dura responde também a ruídos sobre a permanência de Gunn
A recente onda de boatos de que a eventual compra da Warner pelo Paramount poderia tirar Gunn do comando aumentou a pressão. Cortar comparações com um título “cancelado” serve, nos bastidores, como prova de pulso firme para acionistas que ainda duvidam da nova gestão. A estratégia inclui reforçar a coesão: Supergirl já foi ligada a quatro heróis em roteiro preliminar, e a volta de “O Esquadrão Suicida” virá sem Harley Quinn justamente para não repetir saturação de tom cômico.
Pessoas próximas ao diretor descrevem a postura como “corte de redundâncias”: se algo lembrar a fórmula Marvel, sai do texto. A regra respinga até em personagens veteranos; o novo Coringa, recém-apresentado em artes de conceito, não terá piadas sobre palhaços para evitar ecoar gags de Loki.
Detalhe que passa despercebido: “Waller” herdou o modelo de “Peacemaker”, não de “She-Hulk”
Um dado interno explica por que Gunn reage com tanta veemência. “Waller” é, na prática, a segunda temporada de “Peacemaker” travestida: a sala de roteiristas, o núcleo de produção e parte do calendário foram migrados intactos para acomodar a agenda de Viola Davis. A série, portanto, já nasce alinhada ao humor negro de John Cena, não ao pastelão de Jennifer Walters — motivo suficiente para Gunn achar a comparação não apenas injusta, mas perigosa para a leitura de mercado.
Em um universo em reconstrução, onde cada anúncio vira julgamento público, bloquear a alcunha “nova She-Hulk” é mais que gestão de crise: é uma declaração de identidade. Gunn sabe que, se o selo DCU tropeçar na estreia, nem Superman conseguirá levantar voo.

