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Novo mangá do pai de My Hero Academia troca super-heróis por horror folclórico e expõe planos da Jump

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O estalo que Weekly Shonen Jump precisava para provar que sabe viver sem My Hero Academia chegou numa história que não tem um único herói de uniforme. Na madrugada de domingo para segunda, a revista japonesa abriu as páginas do inédito “Nue no Onmyōji” (título provisório em romanização livre), primeiro trabalho longo de Kohei Horikoshi depois de oito anos dedicados a Deku — e a troca de gênero é tão brusca que o leitor passa do brilho de cota metálica para o odor de cadáver em dois quadros.

Ao cavar o folclore de exorcistas que caçam espíritos nusae no interior de Aomori, Horikoshi não só muda o eixo narrativo como antecipa um movimento de sobrevivência da própria Jump: preparar franquias autorais com DNA de terror e fantasia adulta enquanto as adaptações de heróis caminham para o encerramento natural nos animes.

Terror como vacina para o fim do hype super-herói

A estratégia faz sentido quando olhamos os números de circulação da Jump nos últimos três anos. Segundo dados internos vazados por distribuidores, as edições com capa de My Hero Academia perderam cerca de 11% de vendas no papel desde 2021. O público ocidental, porém, continua fiel no digital, sustentando a receita de licenciamento que paga a conta de Horikoshi. Colocar o mesmo autor para inaugurar uma saga de horror significa usar a marca dele como bote salva-vidas — e, de quebra, rejuvenescer o catálogo sem esperar que um novato acerte o cano logo de cara.

O editorial da Shueisha também está de olho na adaptação live-action que a Legendary Pictures tem engatilhada para 2026. Se o filme emplacar, o assunto “super-herói” volta ao radar sem que a Jump precise manter Deku em coma criativo. Se virar mico, o selo já terá outra vitrine pronta, numa chave narrativa completamente diferente. É o mesmo raciocínio que levou a Sunrise a flexibilizar a língua de Gundam depois de 47 anos — diversificar antes que a curva caia.

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Folclore japonês vira campo de teste para streaming adulto

Horikoshi abre “Nue no Onmyōji” com uma rodada de decapitações, mistura onryō clássicos com metáforas de trauma escolar e já crava dilema moral que deixa qualquer quirks de lado: o protagonista precisa decidir se salva a própria irmã endemoniada ou a aldeia que quer queimá-la viva. Além de fugir da fórmula do “torneio de poderes”, o autor deixa evidente que está escrevendo para leitores que cresceram com My Hero Academia e hoje pagam assinatura de streaming — exatamente o público que a Disney+ perseguiu ao esconder a joia sci-fi “Heavenly Delusion”.

As apostas visuais reforçam o alvo adulto. Rabiscos frenéticos que antes só apareciam em batalhas finais agora tomam conta de painéis inteiros, há uso pesado de retícula suja e, no lugar de onomatopeias de impacto, surgem balões vazios que cedem espaço ao silêncio. É a mesma grife de arte, mas com cheiro de mofo. Quem vê de fora pode até confundir com marketing de Halloween, mas o timing é menos estético e mais político: em julho, começam as negociações de renovação de contrato de Horikoshi com a Shueisha, e mostrar versatilidade significa negociar adiantamento maior.

O detalhe que passa batido: liberdade contratual inédita

No encarte de bastidores do volume digital, Horikoshi revela que assinou cláusula de “lançamento flexível”, algo raríssimo para autores ativos na Jump. Ele poderá alternar semana de publicação entre My Hero Academia — atualmente em seus arcos finais — e o novo mangá, sem a necessidade de hiatos prolongados. Em linguagem de planilha, isso significa que, se o capítulo de exorcismo disparar em engajamento, a revista pode trocá-lo para posição de destaque na rotação e atrasar o herói quando for conveniente. É a primeira vez que o editor-chefe permitiu esse tipo de malabarismo desde que Eiichiro Oda precisou de pausas médicas em One Piece.

Para o leitor brasileiro, o aceno não demora a refletir. A Panini já incluiu o título em sua pesquisa anual de intenção de compra, e executivos do imenso mercado de licenciados, que correm atrás do guarda-roupa nerd, enxergam no novo mangá uma chance de vender camisetas com yokais antes mesmo de o anime existir. Quando Deku finalmente baixar a cortina, Horikoshi terá colocado outro boneco na prateleira — e a Jump, outra vacina contra o próximo surto de cancelamento de hype.

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