O roteiro de Lanterns ficou pronto — e, segundo quem leu, não há uma única piada de “bicho de estimação alien” nem trilha pop para estourar no TikTok. É a primeira produção do universo comandado por James Gunn que renuncia abertamente ao humor de instalação rápida que virou marca do diretor desde Guardiões da Galáxia.
O choque de tom não é detalhe de bastidor: ele aponta para um DCU menos padronizado, capaz de sustentar um true crime intergaláctico entre Hal Jordan e John Stewart enquanto, do outro lado do tabuleiro, um filme de Supergirl ameaça a data de Superman 2. Pela primeira vez, a casa de heróis da Warner – que costuma trocar apenas o uniforme, mas não o cheiro da tinta – aceita que séries e longas falem em dialetos diferentes.
Suspense policial entra, manual de piada sai
Nos rascunhos finais que circularam entre roteiristas, Lanterns abre com um crime brutal num pântano da Louisiana; nada de “biriba verde” voando pelo espaço. A investigação leva Jordan e Stewart a uma rede de corrupção nos Guardiões de Oa, e as páginas quase não têm legendas em neon nem rabiscos de alívio cômico. Quem trabalhou no texto conta que os cortes de piada foram intencionais: qualquer diálogo que lembrasse o sarcasmo de Star-Lord foi riscado.
A mudança cobre até detalhes de caracterização. John Stewart aparece vegano — informação que corria como piada no cânone, mas aqui vira pista de personalidade num interrogatório tenso, não muleta de punchline. E mesmo a inclusão de Guy Gardner quebrando a “lei de um Lanterna por vez” não vem com festa: o personagem entra no arco como fator de desestabilização psicológica, não como válvula de gargalhada.
Bastidores expõem disputa por pluralidade dentro da DC
A guinada tem DNA coletivo. Chris Mundy, escalado após seu trabalho em Ozark, só aceitou ficar se pudesse “escrever sujeira em uniforme reluzente”, relatam fontes ligadas à sala de roteiristas. Damon Lindelof e Tom King, consultores na fase de polimento, reforçaram o pacto: nada de replicar o tom de Superman: Legacy. O resultado foi levado a Gunn com um aviso: mexer em piada aqui bagunça a engenharia inteira. Gunn topou, mas exigiu que a série mantivesse conexão visual com o restante do DCU — daí a escolha por filmar em negativo digital, recurso que conserva a cor esmeralda sem anestesiar a fotografia.
Internamente, a Warner vê o projeto como laboratório. Se Lanterns sustentar audiência mais adulta, filmes previstos para 2027 podem ousar sem medo de parecer traição de marca. É o caso do novo Batman, cuja Gotham já sinaliza cartilha estética fresca após a mudança drástica em Clayface. Superman também observa: o estúdio avalia versões de roteiro com menos gracejo e mais ética do presente real, movimento que só ganhou força depois que Lanterns provou que a plateia não precisa rir a cada cinco páginas.
Entre portas fechadas, executivos admitem que a “piada automática” poupava risco, mas achatava qualquer identidade. Se Lanterns entregar a tensão prometida — episódios dirigidos como capítulos de seriado noir de 1990, não como clipe —, o DCU pode, enfim, deixar de soar como variação do mesmo single. É pouco para quem sonha com revolução, mas suficiente para quebrar o monopólio de risadas fáceis e abrir uma avenida criativa que o estúdio, até agora, fingia não enxergar.

