Horas depois de anunciar nova leva de produções voltadas à chamada Fase 7, a Marvel Studios disparou um e-mail interno que pegou elenco e roteiristas de surpresa: tanto o filme Blade quanto a série Ironheart estão oficialmente “em suspensão por prazo indeterminado”. A mensagem corta o salário de sala de roteiro, interrompe estágios de pré-produção e congela o calendário de estreias que, até janeiro, ainda circulava nos bastidores da Disney.
O recuo atinge em cheio dois dos poucos projetos liderados por protagonistas negros e coloca em xeque a narrativa de diversidade construída desde Pantera Negra. Nos corredores de Burbank, fontes relatam que a ordem veio de cima: priorizar blockbusters de evento e aparar “filmes satélites” até o estúdio recuperar fôlego de bilheteria — uma virada que reabre o debate sobre quem paga a conta quando a estratégia muda.
Mudança de rota congela Blade e Ironheart em nome de blockbusters de evento
Em desenvolvimento desde 2019, Blade já havia trocado de roteirista três vezes e consumido mais de US$ 40 milhões em pré-produção. Mahershala Ali, que tinha contrato para três aparições, foi avisado de que pode aceitar outros projetos até segunda ordem. Nos números internos, a projeção de bilheteria internacional despencou 32 % após o mau desempenho de The Marvels, tornando o caçador de vampiros “alto risco” na planilha dos executivos.
Ironheart, por sua vez, estava com seis episódios filmados e pausa o processo de pós-produção. A justificativa oficial cita “alinhamento de janela”, mas integrantes da equipe afirmam que a série perdeu peso estratégico após a Marvel decidir concentrar capital criativo em arcos capazes de desembocar em Avengers: Secret Wars. A mesma lógica já havia cortado projetos menores, mas desta vez afeta produções cruciais para manter o MCU plural.
Suspensão reacende crítica de retrocesso na diversidade e pressiona a Disney
O baque acontece enquanto a Disney negocia novos incentivos fiscais com o estado da Geórgia, onde gravita boa parte dos estúdios da Marvel. A suspensão de títulos estrelados por protagonistas negros enfraquece o discurso de inclusão usado nessas mesas. Dentro do conglomerado, vozes ligadas ao marketing temem perder o capital simbólico acumulado desde 2018, quando Pantera Negra faturou US$ 1,3 bilhão e virou vitrine antirracista.
Efeito dominó nas próximas fases
Ao privilegiar eventos como a Saga Mutante — já ventilada em acordo recente de oito novos contratos — o estúdio corre o risco de limitar a própria cartela de vozes. Analistas apontam que, se não houver correção rápida, Sam Wilson pode ser o único herói negro com franquia solo garantida até 2028. Isso contrasta com a ousadia criativa vista no spin-off de Visão e no experimentalismo que ressuscitou o Motoqueiro Fantasma para o laboratório sobrenatural.
Por ora, a Disney não comenta prazos de retomada e prefere enfatizar investimentos “em experiências cinemáticas premium”. A palavra “premium” virou novo mantra corporativo, mas, para parte do público e de acionistas alinhados a causas sociais, soa como sinônimo de seletividade. Se a Marvel não reverter a decisão, a próxima década do MCU pode chegar à telona com um elenco menos diverso do que aquele que encantou plateias há apenas seis anos — um gesto simbólico que pesa tanto quanto qualquer número de bilheteria.
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