Se a internet ferve à espera da 4ª temporada de The Boys, a Netflix já guarda desde 2021 um sucessor espiritual que faz tudo que a série da Amazon promete – com menos discurso corporativo e mais insolência. Trata-se de Super Crooks, anime baseado no quadrinho de Mark Millar, o mesmo roteirista de “Guerra Civil” e “Velho Logan”. A adaptação japonesa entrega violência gráfica, roubo de banco de supervilões e crítica a capitalismo de capa e espada, mas continua esquecida no algoritmo.
O paradoxo se aprofunda quando lembramos que Millar vendeu todo o seu selo Millarworld justamente para a Netflix, em um acordo bilionário que pretendia rivalizar com os universos compartilhados da Marvel Studios. Enquanto projetos como Jupiter’s Legacy afundaram logo no primeiro voo, Super Crooks foi lançado sem campanha global massiva, conquistou nota alta entre quem descobriu por acaso – e hoje vira moeda de troca silenciosa na guerra do streaming por produções adultas de super-herói.
Anime japonês, DNA da Marvel e orçamento “de desconto”
A premissa é direta: Johnny Bolt, ladrão dotado de eletrocussões, reúne um esquadrão de desajustados para o último grande roubo da carreira. A gênese é o quadrinho de 2012 cocriado por Millar e Leinil Yu, dois artistas veteranos da Marvel. Mesmo assim, a adaptação caiu nas mãos do estúdio Bones, responsável por My Hero Academia, que injetou estética de shonen decolando madrugada adentro.
A mistura resultou em 13 episódios de 24 minutos, animação fluida e trilha que escorrega do jazz ao funk. Custou menos que qualquer temporada live-action de herói – e estoura em tela como se tivesse o triplo do orçamento. Não há efeitos digitais duvidosos, nem o cansaço de câmeras tremidas de Jessica Jones. O formato animado dá licença para decapitações estilizadas, golpes de gravidade zero e até subversão de poderes que lembram a criatividade crua de One Piece.
Por que a série é mais afiada que The Boys (e quase ninguém percebeu)
The Boys virou vitrine de sátira política, mas carrega o peso de esticar tramas entre temporadas e de ter seu próprio universo transmídia a cada lançamento. Super Crooks foge dessa armadilha: tem arco fechado, vilões que não buscam redenção hollywoodiana e piadas que castigam tanto a indústria de super-heróis quanto o espectador cúmplice. Cada golpe falha ou dá certo em ritmo de heist movie, sem o cliffhanger artificial que infesta o streaming.
Outro detalhe que passa batido: a linha do tempo de Super Crooks cruza, nos quadrinhos, com O Legado de Júpiter. Na prática, significa que a Netflix já possui material pronto para construir um crossover adulto, algo que a Amazon levou anos para refinar entre The Boys e Gen V. A diferença é que o estúdio japonês acertou o tom logo na primeira leva, evitando o desgaste que a série de Karl Urban enfrentou com piadas repetidas e vilões trocando só o slogan.
Silêncio de marketing é estratégia ou descuido?
Executivos da Netflix dizem nos bastidores que a audiência “cumpriu projeção interna”, código elegante para projeto de nicho. Ainda assim, a plataforma apostou na mesma época em divulgações muito maiores para títulos menos elogiados. O contraste levanta a suspeita de que Super Crooks serve hoje como carta na manga: se The Boys saturar o público, a Netflix já tem resposta pronta para manter o adulto-heroico no catálogo sem negociar com Disney ou Warner.
O que vem agora e onde a Netflix pode virar o jogo
Mark Millar confirmou ter roteiros de um segundo arco centrado na personagem Kasey, telepata que rouba pensamentos mais rápido do que cofres. O estúdio Bones, que recentemente adotou ferramentas de IA em pré-animação – movimento parecido com o descrito na matéria sobre a liberação de IA gratuita no Japão –, estaria pronto para acelerar a produção caso o sinal verde chegue ainda em 2024.
Enquanto isso, fãs garimpam referências internas (há acenos diretos a “Old Man Logan” no episódio 9) e especulam conexões de multiverso que a própria Marvel Studios abandonou por ora. Se a Netflix decidir capitalizar, tem em mãos o raro super-herói que não precisa de 40 filmes anteriores nem de cenas pós-crédito penduradas por algoritmo. Falta apenas avisar ao público que ele existe.
Se The Boys se tornou sinônimo de subversão heroica, Super Crooks prova que o trono nunca esteve tão disputado – e que uma animação japonesa feita a preço de custo pode, sim, ser a melhor série adulta da Marvel que ninguém comenta.
Acesse diariamente nossas dicas sobre animes e games para não perder nada. Siga também o RadioGeekBR no Facebook!

