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Parlamentar canadense propõe “compra de resgate” da BioWare e expõe dilema de soberania cultural nos games

A frase soou improvável até para veteranos de Ottawa: “Precisamos considerar a aquisição integral da BioWare antes que ela desapareça do mapa”. O apelo partiu do deputado Noah Byrne, vice-líder do Novo Partido Democrático, durante sessão de emergência sobre desemprego tecnológico, dias depois de a Electronic Arts confirmar novos cortes no estúdio de Edmonton.

Byrne não falou só para a plateia. Ele articulou com o Ministério da Inovação a aplicação da Investment Canada Act – regra criada para impedir vazamento de ativos estratégicos – como base legal para que o governo assuma controle sobre a desenvolvedora de Mass Effect e Dragon Age. Nos bastidores, liberais e conservadores admitem que a ideia força uma pergunta há muito evitada: até onde vai a soberania cultural quando os grandes estúdios pertencem a multinacionais estrangeiras?

Pressão vai além dos empregos: o que está em jogo para Ottawa

A BioWare não é só mais uma folha na folha de pagamento de Alberta: gera 1 300 postos diretos, movimenta fornecedores de motion capture em Vancouver e ancora um polo de pesquisa em narrativa procedural com a Universidade de Calgary. Segundo a associação Interactive Canada, cada vaga no estúdio sustenta outras 2,4 na cadeia local.

Por isso, ao contrário dos recentes fechamentos de startups de IA, o possível esvaziamento da BioWare ameaça vazar capital intelectual construído em 28 anos. É o tipo de talento que, quando migra, leva junto network, patentes e atratividade para fundos de venture capital. Byrne joga com esse medo ao defender que “não se trata só de números, mas de futuro criativo do país”.

IPs como Mass Effect complicam resgate estatal

Mesmo que Ottawa banque a operação, levaria apenas a casca do estúdio. As franquias Mass Effect, Dragon Age e Star Wars : The Old Republic pertencem à EA. O Canadá poderia comprar engines, hardware e equipes, mas sem as marcas que pagam as contas – cenário semelhante ao que ocorreu quando a THQ quebrou em 2012 e deixou times órfãos de suas criações.

Esse detalhe explica por que a proposta inclui cláusula de licenciamento compulsório. A equipe jurídica de Byrne avalia exigir que a Electronic Arts conceda uso continuado das IPs por prazo mínimo de cinco anos, a exemplo das regras aplicadas ao setor farmacêutico. Seria a primeira vez que o dispositivo, pensado para medicamentos essenciais, aterrissaria em entretenimento digital.

Precedentes mostram que a conta política chega rápido

O histórico federal não ajuda a causa. O resgate da Bombardier, em 2016, drenou 372 milhões de dólares canadenses e ainda rende críticas sobre “governo garçom” de empresas privadas. Ciente disso, Byrne tenta se blindar ao sugerir participação minoritária de fundos de pensão, repetindo a fórmula usada no consórcio que salvou a Cirque du Soleil em 2020.

A comunidade gamer observa de perto. Fãs lembram que, enquanto o impasse rola em Ottawa, a Amazon segue revitalizando o universo de Mass Effect para streaming, o que pode inflar ainda mais o valor das IPs. Já a EA mantém silêncio estratégico: oficialmente, diz “continuar comprometida” com a divisão, mas internamente acelera migração de projetos para Austin e Los Angeles.

O relógio corre. Caso o Parlamento não defina uma linha de ação até setembro, a legislação trabalhista permitirá à EA encerrar unidades no país com custo reduzido de indenização. Byrne sabe disso e, na falta de consenso, usa o debate para mirar nas eleições de 2025. Se a BioWare resistirá até lá é outra história – que, por enquanto, depende mais de planilhas em Redwood City do que de discursos em Ottawa.

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