Quando a revista norte-americana especializada em cultura pop publicou, nesta semana, a lista definitiva das 20 maiores personagens femininas do anime, o que saltou aos olhos não foi quem ocupou o topo – Major Motoko Kusanagi, de Ghost in the Shell, segue intocável –, mas a quantidade de nomes que só nasceram depois de 2010. É a primeira vez que um ranking internacional dessa escala coloca a novata Anya Forger, de Spy x Family, no top 10, superando veteranas como Bulma e Sailor Moon.
O detalhe importa porque o mercado de animação japonês nunca faturou tanto com público fora do arquétipo “otaku raiz” masculino. Ao privilegiar protagonistas que dialogam com debates contemporâneos – de saúde mental a maternidade não tradicional –, a lista funciona quase como um relatório de mudança de guarda: o que antes era exceção virou regra de mercado, de narrativa e de licenciamento.
Ranking escancara a redistribuição de poder na cultura otaku
Das 20 posições, nove pertencem a personagens criadas na última década, um salto de 150% em relação ao levantamento anterior, feito em 2015. O fator determinante, segundo executivos de plataformas de streaming ouvidos nos bastidores do AnimeJapan, é simples: as novas protagonistas vendem mais assinatura e mais produto de prateleira. Onyankopon? Não. É Makima, de Chainsaw Man, quem impulsiona o volume de capas de celular no Sudeste Asiático.
A mudança de comportamento já era visível em franquias tradicionais. Dragon Ball, que por anos deixou as mulheres no banco de reserva, precisou acelerar o protagonismo de nomes como Pan e Caulifla depois que a hierarquia do Ultra Instinct foi “democratizada” no mangá. No universo shonen, onde a testosterona sempre pagou a conta, está em curso uma negociação silenciosa: ou se cria uma heroína relevante, ou o algoritmo lhe esquece.
Três presenças explicam por que 2024 é o ano delas
1. Anya Forger e a infantilização consciente do marketing
A telepata de Spy x Family encabeça campanhas de comida congelada no Japão e, ao mesmo tempo, lota estandes de games mobile na Europa. A estratégia, dizem analistas de licenciamento, é transformar a personagem em uma “Hello Kitty com lore”, onde fofura e trama densa caminham juntas.
2. Yor Briar e a nova estética da violência feminina
A assassina que finge ser mãe na mesma série inaugura um arquétipo raro: a mulher letal cuja força não precisa ser justificada por trauma sexual. Esse detalhe tem sido estudado por roteiristas de Hollywood que buscam adaptar mangás sem cair em clichês cansados.
3. Makima e o retorno da vilã magnética
Chainsaw Man devolveu profundidade à antagonista feminina ao torná-la símbolo de poder institucional. A personagem aparece na lista logo atrás de Motoko, reforçando que a nova geração não teme vilãs complexas – algo que o próprio estúdio MAPPA planeja aproveitar na segunda temporada.
Vale notar que Fubuki, de One-Punch Man, ficou fora do top 20, apesar do buzz em torno da arte de biquíni que dividiu fãs e críticos. Como já analisamos na matéria “O biquíni que sacudiu One-Punch Man”, o fanservice isolado não garante lugar no panteão quando a régua passa a ser densidade dramática.
O impacto imediato nos próximos lançamentos
Com Jujutsu Kaisen preparando o arco de Maki Zenin para o próximo inverno japonês e a Netflix disparando anúncios de longa-metragens centrados em heroínas – a começar por Demon Slayer: Infinity Castle, que estreia antes no streaming, conforme detalhamos em “Netflix rouba a cena e libera Demon Slayer” – a indústria já reage ao termômetro do ranking.
Editores de mangá relatam aumento de 40% na busca por roteiristas mulheres, enquanto fabricantes de figures correm para reposicionar linhas baseadas em títulos de 1990, agora com novos moldes que reduzam o olhar objetual. Se o top 20 serve de pista, 2024 será lembrado como o ano em que se consolidou uma máxima simples: protagonista feminina robusta não é cota, é lucro.
No fim das contas, o principal recado do ranking é menos sobre quem venceu e mais sobre quem passa a ditar as regras do jogo. E, ao que tudo indica, as próximas heroínas já nascerão sabendo disso.

