Sem aviso prévio, a Takara Tomy colocou em pré-venda nesta quinta-feira uma versão do EVA-01 que ignora duas décadas de retoques digitais e retorna ao desenho cru exibido na estreia de Neon Genesis Evangelion em 1995. O brinquedo, parte da linha “Premium Mecha Collection”, repõe até o tom roxo ligeiramente desbotado que Hideaki Anno abandonou na remasterização 1.11, detalhe que servidores de streaming costumam comprimir até sumir.
Ao resgatar esse “erro de fábrica” colorimétrico, a fabricante não só mira no colecionador que paga caro por centímetros de autenticidade; ela também pressiona concorrentes como Bandai, que há anos adota um visual híbrido para o mesmo robô. A jogada revela o quanto a indústria de figuras de ação virou campo de batalha em torno de uma palavra-chave: nostalgia calibrada no microscópio.
Réplica premium aposta na falha cromática que só o VHS entregava
A peça mede 24 centímetros, tem 32 pontos de articulação e chega às lojas japonesas em abril de 2025 por 29.800 ienes (cerca de R$ 1.050). O valor empata com a série Metal Build, mas ganha vantagem na narrativa: a Takara contratou ex-funcionários do estúdio Gainax para validar ranhuras, linhas pretas mal uniformizadas e até o visor frontal menos translúcido, traços suprimidos na reconstrução 3.0+1.0.
Dentro da caixa, o comprador encontra três cabeças intercambiáveis — uma delas sem oiser, remetendo ao “teste de sincronização” do episódio 05 — e um braço extra ainda pingando fluido LCL, algo inédito em lançamentos oficiais. Segundo a equipe de licenciamento da Khara, a exigência era garantir que cada cicatriz aparecesse “como vista na fita magnética” original, não na edição Blu-ray. O resultado final também se distancia do EVA-01 articulado vendido pela Good Smile Company, cuja pintura metalizada combina com vitrines modernas, mas desagrada puristas.
Corrida pela memória explica por que 1995 voltou a valer ouro
O movimento da Takara ocorre numa temporada em que relíquias dos anos 80 e 90 disparam em valor: em junho, fãs de Dragon Ball comemoraram a redescoberta da capa original de Piccolo, enquanto a Netflix adiou em um ano, mas finalmente liberou Demon Slayer: Infinity Castle para capitalizar na fome retro. Cada episódio de revival envia o mesmo recado: parte do público topa pagar mais, contanto que o item prometa devolvê-lo à sensação exata do primeiro contato, não a uma releitura polida.
O detalhe que despista o olhar casual
Quem só viu Evangelion nas plataformas HD talvez nem note que o peito do EVA-01 exibia um leve vinco irregular entre as placas 02 e 03, fruto de uma sobreposição mal pintada nos modelos de celulóide. A nova figura recria o defeito com relevo de 0,3 milímetro. É o tipo de micro-assinatura que falsificadores ignoram e que colecionadores usam para medir legitimidade — e, claro, justificar valores que ultrapassam quatro dígitos após o câmbio.
Se a Takara acertar o timing, o EVA-01 raiz chegará às vitrines ocidentais durante a próxima temporada de convenções, onde painéis sobre animação clássica já atraíam filas. Na prática, a empresa vende mais que um action figure: entrega um certificado de viagem no tempo para 1995, ano em que a TV passava longe do 4K e cada cor fora de registro virava identidade. Nesse mercado, a imperfeição vale ouro — e as concorrentes acabam de ganhar um exemplo caro de como explorá-la.

