One Piece acabou de perder um trono que ocupava, com folga, desde 2000. No fechamento do ano editorial japonês de 2026, Diários de uma Apotecária, publicado pela Square Enix, vendeu 10,42 milhões de exemplares – 98 mil a mais que a obra de Eiichiro Oda. A ultrapassagem põe um novo rosto no posto mais alto das prateleiras e surpreende até livrarias que mantinham remessas de Luffy como “venda certa”.
O feito vai além do número absoluto: é a primeira liderança anual pertencente a um selo fora da Shueisha em 22 anos, derrubando o argumento de que apenas grandes batalhas shonen sustentam os grandes volumes de mercado. A virada, costurada por uma heroína que soluciona envenenamentos na China Imperial, expõe a força combinada de streaming, edições duplas e marketing de nicho – peça que pode reposicionar todo o pipeline de lançamentos a partir de 2027.
Ultrapassagem de 100 mil cópias nasce de estratégia de “animação puxando papel”
A Square Enix usou o calendário a seu favor. Em vez de concentrar lançamentos trimestrais, a editora quebrou o ano com três volumes de Diários de uma Apotecária, todos atrelados a picos de audiência do anime exibido no final das noites de sábado. O cross-media trouxe leitores ocasionais para as livrarias exatamente na semana de fechamento da contagem da Oricon, selando a diferença de quase 100 mil cópias sobre One Piece.
Nas redes, o resultado disparou a tag “#MaoMaoNoTopo” enquanto livrarias nas áreas de Nagoya e Fukuoka relataram reposição emergencial em menos de 48 horas. A movimentação reforça que séries com protagonista feminina e trama investigativa, antes tratadas como “subgênero”, podem ocupar o espaço que os long-runners de batalha vêm perdendo, algo que também explica o avanço de Oshi no Ko e Blue Lock em anos recentes.
Square Enix fez o que a Shueisha ainda testa: vender primeiro para nicho, depois para massa
Enquanto a Shueisha tenta acelerar títulos por distribuição-relâmpago – estratégia que já apareceu quando a casa “liberou uma enxurrada de novos mangás” de uma vez – a Square Enix apostou no caminho inverso. Criou base fiel em feiras de light novel, manteve tiragens com cheiro de edição limitada (capas em relevo, marcador com aroma de ervas) e só então escalou produção quando esgotamentos se tornaram rotina.
O método trouxe duas vantagens: margens maiores por volume e um banco de dados de leitores dispostos a comprar box colecionável sem esperar desconto. Esse “ticket médio premium” sustentou campanhas de marketing que colocaram a heroína Mao Mao em anúncios de skincare e até em uma linha de utensílios culinários, modelo já testado em outras franquias, como a onda nostálgica do Studio Ghibli na cozinha.
Detalhe pouco notado: duas versões oficiais alimentam o mesmo sucesso
Um ponto que passa batido: existem duas adaptações em quadrinhos de Diários de uma Apotecária, ambas licenciadas, mas só a da Square Enix contabiliza para o ranking anual. A outra, publicada digitalmente por uma subsidiária da Shogakukan, soma 2,3 milhões de cópias fora da medição física da Oricon. Se houvesse consolidação, a vantagem sobre One Piece superaria 3 milhões.
O recorte explica por que o resultado de 2026 preocupa a concorrência: mesmo com parte da procura pulverizada em apps de leitura, a série ainda foi capaz de destronar o mangá mais vendido do século. Para o leitor, significa mais pluralidade nas gôndolas; para o mercado, um sinal claro de que a próxima grande briga não será apenas por batalhas épicas, mas por quem consegue converter fãs multiplataforma em compradores de papel.
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