O cessar-fogo que selou a disputa de quatro décadas entre a japonesa Big West e a americana Harmony Gold acaba de soltar o freio de mão de Macross no resto do mundo — e, com ele, uma leva de valkyries em escala, estátuas premium e kits de montar já em produção para 2024. Para quem sempre viu sua prateleira dominada pelos Gunpla de Gundam, a notícia equivale a abrir um novo hangar inteiro.
O impacto vai além do fã de macrossar as estantes: aciona um mercado global de US$ 12 bilhões em brinquedos de coleção, hoje concentrado na Bandai. A nova fase promete empurrar players como Good Smile, ThreeZero e Sentinel a disputar território com o monopólio de Gundam, enquanto o câmbio favorável e a logística pós-pandemia encurtam o tempo entre o anúncio e a entrega no Brasil.
Trégua de 40 anos destrava licenças e calendário de lançamentos
O conflito jurídico começou em 1982, quando a série original The Super Dimension Fortress Macross aterrissou nos EUA reeditada como parte de Robotech. A partir dali, cada tentativa de exportar filmes ou brinquedos esbarrou em liminares. A reconciliação, assinada em 2021 mas só agora regulamentada pelos órgãos de copyright, autoriza exportar todas as produções Macross e, crucialmente, fabricar produtos oficiais sem pedir bênção dupla.
Isso significa que empresas especializadas em tiragens limitadas — de dioramas LED a capacetes em fibra de vidro — já negociam lotes para a San Diego Comic-Con do ano que vem. Segundo executivos ouvidos na Tokyo Toy Fair, a Big West liberou um pipeline de 27 projetos até 2026, começando por um VF-1S de 1/48 com o selo de “Ultimate Item”, nível de acabamento que hoje só vemos em linhas como a jaqueta de luxo de Princess Mononoke.
Quem entra na corrida por valkyries: Bandai, Kotobukiya e estreantes
A Bandai Spirits, que já detém a marca Gunpla, confirmou a retomada da série Hi-Metal R e uma versão Perfect Grade inédita — um aceno de que também quer faturar com o antigo rival. Mas a festa não será exclusiva: Kotobukiya prepara kits snap fit pensados para iniciantes, enquanto a norte-americana Hasbro, de olho na licença Robotech, busca ponte para distribuir exclusivos nos EUA sem cruzar a linha do acordo.
Do lado premium, a californiana Sideshow negocia dioramas que misturam resina e engine de som, e a Sentinel planeja articulados com peças em alumínio anodizado. Para lojistas brasileiros, o timing não poderia ser melhor: o aumento de 38 % nas importações de itens colecionáveis em 2023 abriu espaço para pré-vendas parrudas, modelo que funcionou com Dragon Ball Super e agora deve migrar para os fãs de mecha.
O que muda para o bolso do fã e para a hegemonia de Gundam
Com a enxurrada de novos licenças, o preço médio do “entry kit” tende a cair de R$ 320 para a faixa de R$ 250, estimam distribuidores, graças ao maior número de marcas competindo no mesmo nicho. Já os colecionadores hardcore precisarão de fôlego: edições limitadas a 500 unidades devem ultrapassar a barreira dos R$ 6 mil, impulsionadas pelo dólar mais caro e acabamento de luxo.
Para Gundam, o risco real não é a queda de vendas, e sim a perda de monopólio cultural. Desde 2020 a franquia domina 80 % do mercado de maquetes de robôs no Japão e 60 % no Ocidente. Se metade dos novos kits Macross angariar a audiência casual que fez Animal Crossing explodir no Switch, Bandai terá de recalibrar estoques e marketing. Em outras palavras: o duelo que começou na TV nos anos 80 vai continuar, só que agora nas vitrines do mundo inteiro.

